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Os feitos e a natureza de Afrodite

Mitologia - Mitologia Grega

Os feitos e a natureza de Ares

Mitologia - Mitologia Grega

Os Filhos de Zeus

Mitologia - Mitologia Grega

As origens de Afrodite

Mitologia - Mitologia Grega

Os Feitos e a Natureza de Pã

Mitologia - Mitologia Grega

2/28/2021 12:46:33 PM | Por Robert Graves
Os feitos e a natureza de Afrodite

Raramente se conseguia convencer Afrodite a emprestar às outras deusas seu cinto mágico, que fazia com que todos se apaixonassem pela portadora, pois tinha muito ciúmes de sua vantajosa posição. Zeus a havia cedido em matrimônio a Hefesto (Vulcano, entre os romanos), o deus ferreiro coxo, mas o verdadeiro pai de seus três filhos - Fobos, Deimos e Harmonia - era Ares, o impetuoso, ébrio e irascível deus da guerra, de membros fortes e bem formados. Hefesto ignorava a traição, até que, uma noite, os amantes permaneceram tempo demais na cama do palácio de Ares, na Trácia. Quando Hélio se levantou e viu que estavam se divertindo, foi contar tudo a Hefesto.

Hefesto retirou-se furioso para a sua ferraria e, a golpes de martelo, forjou uma rede de caça em bronze, tão fina como uma teia de aranha mas inquebrável, que atou secretamente aos pilares e as laterais de seu leito matrimonial. Quando Afrodite voltou da Trácia, toda sorridente, dizendo que havia resolvido certos assuntos em Corinto, seu marido lhe disse:

- Perdoe-me, querida, farei um breve retiro na ilha de Lemnos, minha favorita.

Afrodite não se ofereceu para acompanha-lo e, quando o perdeu de vista, apressou-se em chamar Ares, que veio imediatamente. Os dois se atiraram alegremente na cama, mas, ao amanhecer, viram-se envoltos na rede, nus e incapazes de escapar. Ao regressar de sua viagem, Hefesto os surpreendeu ali e chamou todos os deuses para testemunhar sua desonra. Anunciou então que não libertaria a esposa enquanto não recebesse de volta os valiosos presentes nupciais que entregara a Zeus, pai adotivo de Afrodite.

Os deuses logo se prontificaram a contemplar o embaraço de Afrodite.

As deusas, por delicadeza, ficaram em casa. Apolo cutucou Hermes:

- Você não se importaria em estar no lugar de Ares, com rede e tudo, não? - Perguntou.

Hermes disse, jurando por sua própria cabeça, que não se importaria em absoluto, mesmo que houvesse três vezes mais redes e que todas as deusas estivessem olhando com desprezo. Diante de tal resposta, ambos explodiram em gargalhadas. Mas Zeus estava tão desgostoso que se negou a devolver os presentes nupciais ou a interferir numa vulgar disputa entre marido e mulher, declarando que Hefesto era um estupido por ter propalado o assunto. Ao ver o corpo desnudo de Afrodite, Posídon apaixonou-se por ela, mas ocultou a inveja que sentia de Ares, fingindo simpatizar com Hefesto:

- Já que Zeus se recusa a ajudar - disse Posídon -, providenciarei para que Ares pague, para ser liberado, o equivalente aos presentes nupciais em questão.

- Assim está muito bem - replicou Hefesto, triste.

- Mas, se Ares não cumprir a obrigação, você terá de substitui-lo embaixo da rede.

- Em companhia de Afrodite? - perguntou Apolo, rindo.

- Não creio que Ares falte com a palavra - disse Posídon, com nobreza - Mas, se o fizer, estou disposto a pagar eu mesmo a divida e a me casar com Afrodite.

Assim, Ares foi colocado em liberdade e voltou para a Trácia, enquanto Afrodite foi para a ilha de Pafos, onde renovou sua virgindade no mar.

Lisonjeada pela sincera confissão de amor de Hermes, Afrodite passou uma noite com ele, e o fruto deste ato foi Hermafrodito, uma criatura com os dois sexos. Igualmente contente com a intervenção de Posídon em sua defesa, ela lhe deu dois filhos, Rodo e Herofilo. É desnecessário dizer que Ares se omitiu, alegando que, se Zeus não se dispôs a pagar, por que ele o faria? No final, ninguém pagou porque Hefesto estava loucamente apaixonado por Afrodite e não tinha intenções reais de se divorciar dela.

Mais tarde, Afrodite entregou-se a Dionísio, dando-lhe Priapo, um menino feio com um falo descomunal (foi Hera quem lhe deu essa aparência obscena a fim de punir Afrodite por sua promiscuidade). Ele era jardineiro e carregava consigo um podao.

Embora Zeus nunca tenha se deitado com sua filha adotiva Afrodite, como afirmam alguns, a magia de seu cinto submeteu-o a constantes tentações, e, finalmente, ele decidiu humilha-la, fazendo-a apaixonar-se perdidamente pelo mortal Anquises, o atraente rei dos dardanos e neto de Ilo. Uma noite, quando dormia em sua cabana de pastor, no monte Ida, em Troia, Afrodite veio visita-lo disfarçada de princesa frigia, envolta numa deslumbrante túnica vermelha, e se entregou a ele num leito de peles de ursos e leões, enquanto as abelhas zumbiam sonolentas ao seu redor. Quando se separaram, ao amanhecer, ela revelou sua identidade e o fez prometer que não contaria a ninguém que ela havia partilhado o leito com ele. Anquises ficou horrorizado ao descobrir que havia violado a nudez de uma deusa e suplicou-lhe que poupasse sua vida. Ela lhe garantiu que não tinha nada a temer e que o filho que teriam haveria de ser famoso. Alguns dias depois, enquanto Anquises bebia com os amigos, um deles lhe perguntou:

- Você não preferiria dormir com a filha de cicrana e beltrano a ter nos braços a própria Afrodite?

- Por certo que não - respondeu ele com imprudência. - Tendo dormido com as duas, considero absurda a pergunta.

Zeus escutou a bazofia e lançou um raio contra Anquises, que teria morrido na hora não houvesse Afrodite usado seu cinto para desviar o corisco na direção da terra onde estavam seus pés. De qualquer modo, o impacto enfraqueceu Anquises de tal maneira que nunca mais ele foi capaz de se manter em pé, e Afrodite, pouco depois de dar a luz seu filho Eneias, perdeu toda a paixão por ele.

Um dia, a mulher do rei Ciniras, do Chipre - também chamado rei Fenix, de Biblos, e rei Teias, da Assíria -, teve a leviandade de alardear que sua filha Esmirna chegava a ser mais bela que Afrodite. A deusa vingou-se desse insulto fazendo Esmirna apaixonar-se pelo pai e esgueirar-se furtivamente para a cama dele numa noite escura, depois de mandar que sua aia o embebedasse a ponto de perder a noção do que fizesse. Mais tarde, Ciniras descobriu que era ao mesmo tempo pai e avô do futuro filho de Esmima e, num ataque de ira, empunhou uma espada e a perseguiu ate expulsa-la do palácio. Alcançou-a no alto de uma colina, mas Afrodite apressou-se em transformá-la em uma árvore de mirra, que a espada cortou pela metade. Dela saiu o menino Adônis. Afrodite, já arrependida da maldade que havia cometido, escondeu o recém-nascido em um cofre e o confiou a Perséfone, Rainha da Morte, pedindo-lhe que o guardasse em um lugar escuro.

Perséfone ficou muito curiosa e abriu o cofre, encontrando Adônis lá dentro. Ele era tão adorável que ela o pegou nos braços e o levou para seu palácio. A noticia chegou a Afrodite, que imediatamente se apresentou no Tártaro para reclamar Adônis. Mas, diante da recusa de Perséfone, que o havia convertido em seu amante, apelou a Zeus. Dando-se conta de que Afrodite também queria deitar-se com Adônis, Zeus negou-se a julgar uma disputa tão vulgar e transferiu assunto para um tribunal menor, presidido pela musa Caliope. Seu veredito foi Perséfone e Afrodite tinham o mesmo direito sobre Adônis: Afrodite por ter dado o seu nascimento e Perséfone por tê-lo resgatado do cofre, mas que a deveriam ser concedidas breves ferias anuais para poder descansar das exigências amorosas dessas duas deusas insaciáveis. Portanto, Caliope dividiu o ano em três partes iguais, uma das quais Adônis dedicaria a Perséfone, outra a Afrodite e a terceira a si mesmo.

Afrodite foi ardilosa: valendo-se de seu cinto mágico, convenceu Adônis a dedicar-lhe o tempo que tinha para si mesmo e a detestar o período dedicado a Perséfone, descumprindo, portanto, a sentença do tribunal.

Perséfone, legitimamente ofendida, foi a Trácia para contar a seu benfeitor Ares que agora Afrodite o estava preterindo por causa de Adônis.

- É um simples mortal - gritou ela -, e, ainda por cima, efeminado!

Enciumado, Ares metamorfoseou-se em javali, correu ao morte Líbano, onde Adônis estava caçando, e o escornou ate a morte diante dos olhos de Afrodite. De seu sangue brotaram anêmonas, e sua alma desceu ao Tártaro. Afrodite foi ter com Zeus e, aos prantos, suplicou-lhe que Adônis não passasse mais do que a metade mais melancólica do ano com Perséfone e que fosse o seu companheiro durante os meses de verão. Zeus aquiesceu magnanimamente. Mas há quem diga que o javali era, na verdade, Apolo, vingando-se de uma ofensa que Afrodite lhe havia feito.

Certa vez, para fazer ciúmes a Adônis, Afrodite passou varias noites em Lilibeu com o argonauta Butes, com quem teve o filho Erice, que se tornou rei da Sicilia. Com Adônis teve Golgos, fundador de Golgi, no Chipre, e uma filha, Beroe, fundadora de Beroea, na Trácia. Há quem diga inclusive que foi Adônis, e não Dionísio, o pai de seu filho Priapo.

As Moiras determinaram para Afrodite um único dever divino: fazer amor. Mas um dia Atena surpreendeu-a trabalhando secretamente em um tear e foi se queixar de que suas próprias prerrogativas estavam sendo infringidas, ameaçando abandoná-las por completo. Afrodite desculpou-se profusamente e desde então jamais voltou a realizar um trabalho manual sequer.

Os helenos posteriores diminuíram a importância da grande deusa do Mediterrâneo - durante muito tempo, deusa suprema de Corinto, Esparta, Tespias e Atenas -, colocando-a debaixo da tutela masculina e considerando suas solenes orgias sexuais como indiscrições adulteras. Homero descreve Afrodite presa por Hefesto em uma rede que originalmente pertencia a ela, como deusa do mar, e que provavelmente era usada por sua sacerdotisa durante o carnaval da primavera. A sacerdotisa nórdica Holle, ou Gode, fazia o mesmo no Dia de Maio.

Príapo teve origem nas rudes imagens fálicas de madeira que presidiam as orgias dionisíacas. Foi considerado filho de Adônis por causa dos "jardins" em miniatura ofertados durante suas festas. A pereira era consagrada a Hera como deusa principal do Peloponeso e, por conseguinte, ela foi chamada de Apia.

Afrodite Urânia ("rainha da montanha'), ou Ericina ("deusa da urze"), era a deusa-ninfa de meados do verão. Ela destruiu o rei sagrado, com quem copulou no cume de uma montanha, da mesma maneira que a abelha-mestra aniquila o zangão: arrancando-lhe os órgãos sexuais. Isso explica as abelhas amantes da urze e a túnica vermelha, elementos presentes em seu romance com Anquises em cima da montanha, bem como o culto de Cibele, a Afrodite frigia do monte Ida como abelha-mestra, e a extática autocastração de seus sacerdotes em memória de seu amante Atis.

Anquises era um dos vários reis sagrados feridos com um raio ritualístico após terem sido consortes da deusa da monte-em-vida. Na versão mais antiga do mito ele era assassinado, mas nas posteriores consegue escapar: para justificar a história de como o bondoso Eneias, que levou o sagrado Paládio a Roma, conseguiu salvar seu pai quando a cidade de Tróia estava em chamas. Seu nome identifica Afrodite com Isis, cujo esposo Osíris foi castrado por Seth disfarçado de javali. De fato, "Anquises" é um sinônimo de Adônis. Um santuário de Anquises em Egesta, perto do monte Erix, levou Virgílio a concluir que ele morreu em Drépano, uma cidade vizinha, e foi enterrado na montanha. Na Trôade e na Arcádia surgiram outros santuários a ele. Um favo de mel de ouro exposto no santuário de Afrodite, no monte Erix, parece ter sido uma oferenda votiva de Dédalo por ocasião de sua fuga para a Sicília.

Como deusa da morte-em-vida, Afrodite recebeu muitos títulos que parecem incompatíveis com sua beleza e complacência. Em Atenas era conhecida como a Maior das Moiras e irmã das Erínias e, em outros lugares, como Melenis "a negra", nome que significaria, segundo uma ingênua explicação de Pausânias, que a maior parte dos atos sexuais ocorre durante a noite. Outros nomes são: Escócia ("a escura'), Andrófonos ("assassina de homens") e, segundo Plutarco, Epitímbria ("das tumbas").

O mito de Ciniras e Esmirna registra evidentemente um período da História em que o rei sagrado, numa sociedade matrilinear, decidiu prolongar seu reinado para além da duração habitual. E o fez casando-se com a jovem sacerdotisa - em teoria, sua filha - que viria a ser rainha no próximo mandato, para impedir que algum principezinho se casasse com ela e pusesse fim a seu reino.

Adonis (do fenício adon, "senhor") é uma versão grega do semideus sírio, Tamus, o espírito da vegetação anual. Na Síria, na Ásia Menor e na Grécia, o ano sagrado da deusa se dividia em três partes, regidas pelo Leão, pela Cabra e pela Serpente. A Cabra, emblema da parte central, pertencia à deusa amor, Afrodite; a Serpente, emblema da ultima parte, à deusa da morte, Perséfone; e o Leão, emblema da primeira parte, era consagrado à deusa do parto, chamada aqui de Esmirna, que não tinha nenhum direito sobre Adônis. Na Grécia esse calendário deu lugar a um ano de duas estações, dividido no estilo oriental pelos equinócios, como em Esparta e em Delfos, ou pelos solstícios, segundo estilo ocidental de Atenas e Tebas. Isso explica as diferenças entre os respectivos veredictos de Zeus e da deusa da montanha Caliope.

Tamus foi morto por um javali, como diversos personagens míticos semelhantes: Osíris, o Zeus cretense, Anceu da Arcádia, Carmanor da Lídia e o herói irlandês Diarmuid. Esse javali parece uma vez ter sido uma porca com presas em forma de meia-lua, ou seja, a própria deusa na figura de Perséfone. Mas, quando se dividiu o ano, a estação luminosa passou a ser regida pelo rei sagrado, e a metade escura, pelo seu sucessor, o rival, que aparecia disfarçado de javali selvagem - como Seth, quando matou Osíris, ou como Finn mac Cool, quando matou Diarmuid. O sangue de Tamus e uma alegoria das anemonas que cobriam de vermelho as encostas do monte Líbano depois das chuvas invernais. Em Biblos celebrava-se, a cada primavera, a Adônia, festa funeral em homenagem a Tamus. O nascimento de Adônis a partir de uma árvore de mirra - um afrodisíaco bem conhecido - demonstra o caráter orgiástico de seus ritos. As gotas de resina que essa árvore espelia são supostamente as lágrimas por ele derramadas. Higino faz de Ciniras o rei da Esfria, talvez porque o culto a Tamus parecesse ter tido ali sua origem.

Hermafrodito, filho de Afrodite, era tão jovem com cabelos longos e seios de mulher. Tal como a androgina, ou mulher barbuda, o hermafrodita tinha, naturalmente, sua extravagante contrapartida física, mas, como conceitos religiosos, ambos surgiram durante a transição do matriarcado para o patriarcado. Hermafrodito e o rei sagrado, representante da Rainha, que porta seios artificiais. Andrógina é a mãe de um clã pré-helênico que conseguiu evitar o patriarcado, e, para manter seus poderes magistrais ou enobrecer os filhos nascidos dela com um pai-escravo, adota uma barba falsa, como era o costume em Argos. As deusas barbudas, como a Afrodite cipriota, e os deuses efeminados, como Dionísio, correspondem a essas etapas sociais de transição.

Harmonia é, a primeira vista, um nome estranho para uma filha nascida de Afrodite e Ares, mas naquela época, assim como agora, o que prevalecia em um Estado que estava em guerra era mais do que simplesmente carinho e harmonia.

Mitologia - Mitologia Grega
2/28/2021 12:37:09 PM | Por Robert Graves
Os feitos e a natureza de Ares

O Ares trácio adora a batalha pela batalha, e sua irmã Eris está sempre criando motivos para desencadear uma guerra, seja difundindo rumores ou semeando ciúmes e invejas. Como ela, Ares nunca privilegia uma cidade ou um partido, mas luta de um lado ou de outro, de acordo com sua inclinação, deleitando com a matança de gente e o saque de cidades. Todos os seus colegas imortais o odeiam, desde Zeus e Hera até o mais inferior, exceto Eris, Afrodite - que alimenta uma paixão perversa por ele - e o voraz Hades, que dá boas-vindas aos valentes jovens guerreiros mortos em guerras sangrentas.

Ares nem sempre saiu vencedor. Atena, guerreira muito mais hábil derrotou-o duas vezes em combate. Uma vez, os Aloidas o capturaram e o enceraram em um pote de bronze durante 13 meses, até que, semimorto, ele foi libertado por Hermes. Em outra ocasião, Héracles o fez voltar correndo para o Olimpo apavorado. Desprezava profundamente os litigios, nunca se apresentou diante um tribunal como pleiteador e apenas uma vez como acusado, quando os deuses o responsabilizaram pelo horrível assassinato de Halirrotio, filho de Posídon. Ele se justificou com a alegação de que agira para salvar sua filha Alcipe, da Casa de Cecrope, que ia ser violada pelo tal Halirrotio. Como ninguém havia presenciado o incidente, exceto o próprio Ares e Alcipe, que naturalmente confirmou o testemunho do pai, o tribunal o absolveu. Essa foi a primeira sentença pronunciada em um julgamento por assassinato, e a colina onde os procedimentos ocorreram ficou conhecida como Areópago, nome que ainda conserva.

Os atenienses não eram amantes da guerra, a não ser para defender sua liberdade ou por alguma outra razão igualmente urgente, e desprezavam os trácios por serem bárbaros que haviam feito da guerra um passatempo.

No relato de Pausânias sobre o assassinato, Halirrotio já havia conseguido violar Alcipe. Mas Halirrotio pode ser simplesmente um sinônimo de Posídon - e Alcipe, um sinônimo da deusa com cabeça de égua. De fato, o mito evoca o estupro de Démeter cometido por Posídon e faz referência à conquista de Atenas por sua gente, bem como a humilhação da deusa em suas mãos. Mas ele foi alterado por razões patrióticas e associado a uma lenda de algum velho julgamento por assassinato. Areiopagus significa provavelmente "colina da deusa conciliadora", areia sendo um dos títulos de Atena.

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2/28/2021 12:10:06 PM | Por Robert Graves
Os Filhos de Zeus

Zeus, o eterno enamorado, deitou-se com numerosas ninfas descendentes dos titãs e dos deuses e, depois da criação do homem, deitou-se também com mulheres mortais. Nada menos que quatro divindades olímpicas maiores nasceram-lhe ilegítimas. Primeiro, ele gerou Hermes (Mercúrio) com Maia, filha de Atlas, que o pariu numa caverna do monte Cilene, na Arcádia. Depois, gerou Apolo e Artemis (Diana, entre os romanos) com Leto (Latona, entre os romanos), filha dos titãs Ceo e Febe, tendo-a transformado e a si próprio em codornizes, enquanto copulavam. Mas a ciumenta Hera mandou a serpente Piton perseguir Leto mundo afora e decretou que ela não deveria dar a luz em nenhum lugar onde o sol brilhasse. Carregada pelas asas do Vento Sul (Austro), Leto finalmente chegou a Ortigia, perto de Delos, onde pariu Artemis, que, mal acabara de nascer, pôs-se a ajudar a mãe a cruzar o estreito istmo. Uma vez lá, entre uma oliveira e uma tamareira que cresciam no lado norte do monte Cinto, em Delos, Leto pariu Apolo depois de nove dias de trabalho. Delos, até então uma ilha flutuante, tornou-se imóvel, fixada no mar, e, por decreto, ninguém tem agora permissão de nascer ou morrer ali: doentes e mulheres gravidas são transportados em balsas para Ortigia.

A mãe de Dionísio, filho de Zeus, recebe nomes variados: alguns dizem que teria sido Demeter, ou Io; há quem a chame de Dione; outros, de Perséfone, com quem Zeus copulou depois de assumir a forma de uma serpente; há ainda quem diga ter sido Lete.

Mas a historia mais difundida reza que Zeus, disfarçado de mortal, teve um caso de amor secreto com Semele ("lua"), filha do rei Cadmo de Tebas, e que a ciumenta Hera, revestida das feições de Beroe, velha ama de Semele, recomendou a jovem, já grávida de seis meses, que exigisse de seu misterioso amante que ele parasse de engana-la, e lhe revelasse sua verdadeira forma e natureza. Senão, como poderia ela saber se ele não era um monstro? Semele acatou o conselho e, diante da recusa de Zeus a seu apelo, passou a negar-lhe acesso a seu leito. Ele, então, furioso, surgiu na forma de trovão e raio, fulminando-a. Mas Hermes conseguiu salvar o filho que estava no sexto mês de gestação e o costurou dentro da coxa de Zeus, para que ali maturasse por mais três meses. No tempo devido, ele nasceu. Por isso Dionísio é chamado de "nascido duas vezes" ou "a criança da porta dupla".

Os estupros cometidos por Zeus referem-se, aparentemente, às conquistas helênicas dos antigos templos da deusa, como o do monte Cilene, e seus casamentos, a um antigo costume de dar titulo de "Zeus" ao rei sagrado do culto do carvalho. Hermes, seu filho, nascido após Zeus haver estuprado Maia - titulo de uma deusa da Terra representada por uma velha -, originalmente não era um deus, mas a virtude totêmica de um pilar fálico, ou um marco de pedras. Tais pilares constituíam o centro de uma dança orgíaca em honra a deusa.

Um componente na divindade de Apolo parece ter sido um camundongo oracular - Apolo Esminteu ("Camundongo-Apolo") figura entre os seus primeiros títulos - consultado num tempo da Grande Deusa, o que talvez explique por que ele nasceu em um lugar onde o sol jamais brilhou, ou seja, no subterrâneo. Camundongos estariam associados a doenças e cura, por isso os helenos veneravam Apolo como deus da medicina e da profecia. Registros mais tardios relatam que ele nasceu debaixo de uma oliveira e de uma tamareira, na encosta setentrional de uma montanha. Era chamado de irmão gêmeo de Artemis, deusa do parto. Sua mãe Leto - filha dos titãs Febe ("lua') e Ceo ("inteligência') -, conhecida no Egito e na Palestina como Lat, tornou-se deusa da fertilidade da ramareira e da oliveira: dai sua chegada a Grécia com o Vento Sul. Na Itália, ela se tornou Latona ("rainha Lat"). Sua briga com Hera sugere um conflito entre os primeiros imigrantes da Palestina e as primeiras tribos nativas que adoravam uma sutra deusa da Terra. O culto ao camundongo, que ela parece ter trazido consigo, estabeleceu-se com firmeza na Palestina (I Samuel VI. 4 e Isaias LXVI. 17). O fato de Piton perseguir Apolo evoca o uso de cobras, nas casas gregas e romanas, para afastar camundongos. Mas Apolo era também o fantasma do rei sagrado que havia comido a maçã - a palavra Apolo deriva, provavelmente, da raiz abol "maçã", e não de apollunai, "destruir", como geralmente se considera.

O pássaro consagrado a Artemis, originalmente uma deusa orgíaca, era a lasciva codorniz. Bandos de codornizes faziam de Ortígia um lugar de descanso durante sua migração de primavera rumo ao norte. A estoria de que Delos, local de nascimento de Apolo, havia sido até então uma ilha flutuante deve ser uma compreensão errônea de um registro que anunciava o estabelecimento oficial de seu local de nascimento, haja vista que Homero (Ilíada IV 101) o chama de "licigeno", isto é, "nascido em Licia" (o gentílico seria lício), e que os efésios vangloriavam-se do fato de ele ter nascido em Ortigia, perto de Éfeso (Tacito: Anais 111. 61). Tanto os tegirenses beocios quanto os zosteranos áticos reivindicavam-no também como seu filho nativo (Estevão de Bizâncio sub Tegira).

Ao que tudo indica, Dionísio surgiu inicialmente como uma espécie de rei sagrado que, no sétimo mês depois do solstício de inverno, foi fulminado pela deusa e devorado por suas sacerdotisas. Isso explica suas mães Dione, a deusa do carvalho; Io e Demeter, deusas do trigo; e Perséfone, deusa da morte. Plutarco, ao chama-lo de "Dionísio, filho de Lete ("esquecimento"), refere-se ao seu aspecto tardio de deus da vinha.

A estória de Semele, filha de Cadmo, parece registrar a ação sumaria tomada por Hellenese da Beocia, ao terminar a tradição do sacrifício real: o Zeus Olímpico afirma seu poder, põe o rei condenado sob sua proteção e fulmina a deusa com seu próprio raio. Dionísio, assim, torna-se imortal, após renascer de seu pai imortal. Semele foi venerada em Atenas durante a Lenaea, Festim das Mulheres Selvagens, ocasião em que um Touro do Ano, representando Dioníso, era cortado em nove pedaços e sacrificado em sua honra: um pedaço era queimado, enquanto o restante era comido cru pelas adoradoras. Semele é geralmente explicada como uma forma de Selene ("lua'), e nove era o número tradicional das sacerdotisas orgíacas da Lua que participavam de tais festins - nove delas foram retratadas dançando em torno do rei sagrado numa pintura rupestre em Cogul, e outras nove mataram e devoraram o acolito de são Sansão de Dol na Idade Media.

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2/21/2021 1:13:13 PM | Por Robert Graves
As origens de Afrodite

Afrodite (Vênus), deusa do desejo, surgiu nua da espuma do mar e, cavalgando uma concha de vieira, onde primeiro pôs os pés foi na ilha de Citera. Porém, considerado-a apenas uma ilhota, cruzou o Peloponeso e, finalmente, passou a residir em Pafos, no Chipre, ainda hoje a principal sede de seu culto. Plantas e flores cresciam por onde ela pisasse. Em Pafos, as Estações, filhas de Temis, apressaram-se em vesti-la e adorná-la.

Há quem afirme que ela surgiu da espuma formada pelos testículos de Urano, quando Cronos os atirou ao mar. Conta-se também que Zeus a gerara com Dione, filha de Oceano e Tetis, a ninfa do mar, ou do Céu com a Terra. Mas todos concordam que ela sustem o ar, acompanhada por pombas e pardais1.

Afrodite ("nascida da espuma') é a mesma deusa com amplos poderes que surgiu do Caos e dançou sobre o mar, tendo sido venerada na Síria e na Palestina como Ishtar ou Ashtaroth. Seu mais famoso centro de adoração era Pafos, onde a imagem aniconica original da deusa é ainda visível por entre as rumas do grandioso templo romano. La, em toda primavera, suas sacerdotisas banhavam-se no mar e retornavam renovadas.

Ela é chamada de filha de Dione, porque Dione era a deusa do carvalho, onde a pomba apaixonada fazia seu ninho. Zeus alegou ser pai de Afrodite apos apoderar-se do Oraculo de Dione em Dodona, portanto Dione tornou-se sua mãe. "Tetis" e "Thetis" são nomes da deusa como Criadora (formados, assim como "Temis" e "Teseu", de tithenai, "dispor" ou "ordenar") e como deusa do mar, desde o momento em que começou a haver vida no mar2. Pombas e pardais eram famosos pela lascívia. Os frutos do mar ainda são considerados, por todo o Mediterrâneo, afrodisíacos.

Citera foi um importante centro do comércio cretense com o Peloponeso e deve ter sido por ali que a adoração a Afrodite entrou na Grécia. A deusa cretense tinha estreitos laços com o mar. Conchas cobriam o chão de seu palácio-santuário em Knossos. Ela é representada em cima de uma pedra preciosa da caverna Ideana, soprando uma concha de tritão, com uma anêmona-do-mar ao lado de seu altar. O ouriço-do-mar e a siba eram consagrados a ela. Uma concha de tritão foi encontrada em seu antigo santuário de Festo, e muitas outras mais, nas tumbas minoicas tardias, algumas delas sendo replicas de terracota.

Mitologia - Mitologia Grega
Reconhecendo o que é bom no que é ruim

O apelo da psicologia positiva reside em seu otimismo em relação à condição humana. Como reação contra a psicologia tradicional, grande parte da psicologia positiva parece rejeitar as realidades de sofrímento, trauma, medo e outros estados que muitas vezes nos definem. As pessoas fazem filas para ver filmes tristes e vão a parques de diversão com atrações aterrorizantes. Assistimos avidamente na televisão a desastres naturais ou causa­dos pelo homem. Algumas das músicas e poemas mais assustadores que jamais foram escritas lidam com perda e fracasso. Enquanto a psicologia tradicional não conseguiu ver a alegria de viver, preocupa-me que a psicologia positiva não consiga ver o lado mais escuro. Precisamos de uma psicologia que assuma o ser humano como um todo. Muitas vezes, não nos damos conta de nosso potencial sem reconhecer e entender nossos defeitos. Até mesmo cantores de música country, como os Oak Ridge Boys, sabem que “machucar uma pessoa não dói”.

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2/9/2021 6:04:10 PM | MenteCérebro, n.197
Maconha como remédio

Realizou-se em abril [2014] na Universidade de Campinas uma ampla discussão sobre drogas, culminando no debate de três questões provocativas: Maconha faz bem? Maconha faz mal? Devemos legalizar a maconha? Mil pessoas participaram com entusiasmo, refletindo o crescente interesse sobre o assunto. Nem o mais otimista dos ativistas imaginaria que a causa da legalização da maconha poderia avançar tão rapidamente quanto nos últimos meses.

Ciências naturais - Biologia
9/5/2020 11:20:25 AM | História Viva, n. 49
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Com Galileu, houve uma dissidência entre os cientistas. Meio a contragosto, é verdade. Porque, animado por uma fé profunda, Galileu nunca ousou negar a existência de Deus, ou menosprezar a autoridade da Igreja. Bem longe disso. Sua erudição e eloquência persuasiva conquistaram o respeito da cúria romana que, deve-se acrescentar, jamais fez segredo de seu interesse pelas descobertas científicas.

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9/5/2020 10:13:56 AM | Leituras da História, n. 05
Prostitutas, de deusas à escória da sociedade

Por volta de 3.000 a.e.c., tribos nômades passaram a criar gado e tornaram-se conscientes do papel masculino na reprodução. As sociedades matriarcais da deusa começaram a ser subjugadas. As primeiras civilizações da era histórica desenvolveram-se na Mesopotâmia e no Egito, e nasceram desse levante.

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Em Sarajevo, atentados em série

Tudo começou em 1913, em Viena, quando o herdeiro do trono, o arquiduque Francisco Ferdinando, resolveu que, no ano seguinte, iria inspecionar as tropas da guarnição na Bósnia-Herzegovina. Sua mulher, Sofia, o acompanharia. Quebrando a etiqueta imperial, ela, uma esposa morganática, seria autorizada a aparecer a seu lado, até mesmo no dia 28 de junho, data que lembrava a Francisco Ferdinando a humilhação sofrida, em 1900, às vésperas de seu casamento, quando teve de renunciar ao trono por seus filhos.

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Alhambra
Alhambra, Granada

A cidade-palácio fortificada de Alhambra, no reino montanhoso de Granada, talvez seja o monumento mais conhecido da Espanha islâmica. A área dentro de suas muralhas talvez estivesse, em sua época, coroada por casas, tendas, oficinas, mesquitas e banheiros daqueles que serviram aos governantes de Granada. Mas hoje, as únicas estruturas que sobreviveram do período islâmico são a fortaleza no extremo ocidental do local; algumas partes dela datam do período da dinastia Zirid (1013-1090), assim como boa parte do complexo do palácio construído pelos Nasrid, especialmente YusufI (1333-1354) e Muhammad V (1354-1359; 1362-1391). Notá­veis entre estes edifícios são a câmara do conselho (a Me­xuar), a câmara de audiências (Salão de Embaixadores), e os famosos Pátio dos Mirtilos e Pátio dos Leões, que fa­ziam parte dos aposentos residenciais privados dos go­vernantes e de suas extensas famílias. Dominando tudo isso está o palácio construído por Carlos V no século XVI, cujo interesse nas estruturas islâmicas foi funda­mental para a conservação.

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2/28/2021 12:46:33 PM | Por Robert Graves
Os feitos e a natureza de Afrodite

Raramente se conseguia convencer Afrodite a emprestar às outras deusas seu cinto mágico, que fazia com que todos se apaixonassem pela portadora, pois tinha muito ciúmes de sua vantajosa posição. Zeus a havia cedido em matrimônio a Hefesto (Vulcano, entre os romanos), o deus ferreiro coxo, mas o verdadeiro pai de seus três filhos - Fobos, Deimos e Harmonia - era Ares, o impetuoso, ébrio e irascível deus da guerra, de membros fortes e bem formados. Hefesto ignorava a traição, até que, uma noite, os amantes permaneceram tempo demais na cama do palácio de Ares, na Trácia. Quando Hélio se levantou e viu que estavam se divertindo, foi contar tudo a Hefesto.

Hefesto retirou-se furioso para a sua ferraria e, a golpes de martelo, forjou uma rede de caça em bronze, tão fina como uma teia de aranha mas inquebrável, que atou secretamente aos pilares e as laterais de seu leito matrimonial. Quando Afrodite voltou da Trácia, toda sorridente, dizendo que havia resolvido certos assuntos em Corinto, seu marido lhe disse:

- Perdoe-me, querida, farei um breve retiro na ilha de Lemnos, minha favorita.

Afrodite não se ofereceu para acompanha-lo e, quando o perdeu de vista, apressou-se em chamar Ares, que veio imediatamente. Os dois se atiraram alegremente na cama, mas, ao amanhecer, viram-se envoltos na rede, nus e incapazes de escapar. Ao regressar de sua viagem, Hefesto os surpreendeu ali e chamou todos os deuses para testemunhar sua desonra. Anunciou então que não libertaria a esposa enquanto não recebesse de volta os valiosos presentes nupciais que entregara a Zeus, pai adotivo de Afrodite.

Os deuses logo se prontificaram a contemplar o embaraço de Afrodite.

As deusas, por delicadeza, ficaram em casa. Apolo cutucou Hermes:

- Você não se importaria em estar no lugar de Ares, com rede e tudo, não? - Perguntou.

Hermes disse, jurando por sua própria cabeça, que não se importaria em absoluto, mesmo que houvesse três vezes mais redes e que todas as deusas estivessem olhando com desprezo. Diante de tal resposta, ambos explodiram em gargalhadas. Mas Zeus estava tão desgostoso que se negou a devolver os presentes nupciais ou a interferir numa vulgar disputa entre marido e mulher, declarando que Hefesto era um estupido por ter propalado o assunto. Ao ver o corpo desnudo de Afrodite, Posídon apaixonou-se por ela, mas ocultou a inveja que sentia de Ares, fingindo simpatizar com Hefesto:

- Já que Zeus se recusa a ajudar - disse Posídon -, providenciarei para que Ares pague, para ser liberado, o equivalente aos presentes nupciais em questão.

- Assim está muito bem - replicou Hefesto, triste.

- Mas, se Ares não cumprir a obrigação, você terá de substitui-lo embaixo da rede.

- Em companhia de Afrodite? - perguntou Apolo, rindo.

- Não creio que Ares falte com a palavra - disse Posídon, com nobreza - Mas, se o fizer, estou disposto a pagar eu mesmo a divida e a me casar com Afrodite.

Assim, Ares foi colocado em liberdade e voltou para a Trácia, enquanto Afrodite foi para a ilha de Pafos, onde renovou sua virgindade no mar.

Lisonjeada pela sincera confissão de amor de Hermes, Afrodite passou uma noite com ele, e o fruto deste ato foi Hermafrodito, uma criatura com os dois sexos. Igualmente contente com a intervenção de Posídon em sua defesa, ela lhe deu dois filhos, Rodo e Herofilo. É desnecessário dizer que Ares se omitiu, alegando que, se Zeus não se dispôs a pagar, por que ele o faria? No final, ninguém pagou porque Hefesto estava loucamente apaixonado por Afrodite e não tinha intenções reais de se divorciar dela.

Mais tarde, Afrodite entregou-se a Dionísio, dando-lhe Priapo, um menino feio com um falo descomunal (foi Hera quem lhe deu essa aparência obscena a fim de punir Afrodite por sua promiscuidade). Ele era jardineiro e carregava consigo um podao.

Embora Zeus nunca tenha se deitado com sua filha adotiva Afrodite, como afirmam alguns, a magia de seu cinto submeteu-o a constantes tentações, e, finalmente, ele decidiu humilha-la, fazendo-a apaixonar-se perdidamente pelo mortal Anquises, o atraente rei dos dardanos e neto de Ilo. Uma noite, quando dormia em sua cabana de pastor, no monte Ida, em Troia, Afrodite veio visita-lo disfarçada de princesa frigia, envolta numa deslumbrante túnica vermelha, e se entregou a ele num leito de peles de ursos e leões, enquanto as abelhas zumbiam sonolentas ao seu redor. Quando se separaram, ao amanhecer, ela revelou sua identidade e o fez prometer que não contaria a ninguém que ela havia partilhado o leito com ele. Anquises ficou horrorizado ao descobrir que havia violado a nudez de uma deusa e suplicou-lhe que poupasse sua vida. Ela lhe garantiu que não tinha nada a temer e que o filho que teriam haveria de ser famoso. Alguns dias depois, enquanto Anquises bebia com os amigos, um deles lhe perguntou:

- Você não preferiria dormir com a filha de cicrana e beltrano a ter nos braços a própria Afrodite?

- Por certo que não - respondeu ele com imprudência. - Tendo dormido com as duas, considero absurda a pergunta.

Zeus escutou a bazofia e lançou um raio contra Anquises, que teria morrido na hora não houvesse Afrodite usado seu cinto para desviar o corisco na direção da terra onde estavam seus pés. De qualquer modo, o impacto enfraqueceu Anquises de tal maneira que nunca mais ele foi capaz de se manter em pé, e Afrodite, pouco depois de dar a luz seu filho Eneias, perdeu toda a paixão por ele.

Um dia, a mulher do rei Ciniras, do Chipre - também chamado rei Fenix, de Biblos, e rei Teias, da Assíria -, teve a leviandade de alardear que sua filha Esmirna chegava a ser mais bela que Afrodite. A deusa vingou-se desse insulto fazendo Esmirna apaixonar-se pelo pai e esgueirar-se furtivamente para a cama dele numa noite escura, depois de mandar que sua aia o embebedasse a ponto de perder a noção do que fizesse. Mais tarde, Ciniras descobriu que era ao mesmo tempo pai e avô do futuro filho de Esmima e, num ataque de ira, empunhou uma espada e a perseguiu ate expulsa-la do palácio. Alcançou-a no alto de uma colina, mas Afrodite apressou-se em transformá-la em uma árvore de mirra, que a espada cortou pela metade. Dela saiu o menino Adônis. Afrodite, já arrependida da maldade que havia cometido, escondeu o recém-nascido em um cofre e o confiou a Perséfone, Rainha da Morte, pedindo-lhe que o guardasse em um lugar escuro.

Perséfone ficou muito curiosa e abriu o cofre, encontrando Adônis lá dentro. Ele era tão adorável que ela o pegou nos braços e o levou para seu palácio. A noticia chegou a Afrodite, que imediatamente se apresentou no Tártaro para reclamar Adônis. Mas, diante da recusa de Perséfone, que o havia convertido em seu amante, apelou a Zeus. Dando-se conta de que Afrodite também queria deitar-se com Adônis, Zeus negou-se a julgar uma disputa tão vulgar e transferiu assunto para um tribunal menor, presidido pela musa Caliope. Seu veredito foi Perséfone e Afrodite tinham o mesmo direito sobre Adônis: Afrodite por ter dado o seu nascimento e Perséfone por tê-lo resgatado do cofre, mas que a deveriam ser concedidas breves ferias anuais para poder descansar das exigências amorosas dessas duas deusas insaciáveis. Portanto, Caliope dividiu o ano em três partes iguais, uma das quais Adônis dedicaria a Perséfone, outra a Afrodite e a terceira a si mesmo.

Afrodite foi ardilosa: valendo-se de seu cinto mágico, convenceu Adônis a dedicar-lhe o tempo que tinha para si mesmo e a detestar o período dedicado a Perséfone, descumprindo, portanto, a sentença do tribunal.

Perséfone, legitimamente ofendida, foi a Trácia para contar a seu benfeitor Ares que agora Afrodite o estava preterindo por causa de Adônis.

- É um simples mortal - gritou ela -, e, ainda por cima, efeminado!

Enciumado, Ares metamorfoseou-se em javali, correu ao morte Líbano, onde Adônis estava caçando, e o escornou ate a morte diante dos olhos de Afrodite. De seu sangue brotaram anêmonas, e sua alma desceu ao Tártaro. Afrodite foi ter com Zeus e, aos prantos, suplicou-lhe que Adônis não passasse mais do que a metade mais melancólica do ano com Perséfone e que fosse o seu companheiro durante os meses de verão. Zeus aquiesceu magnanimamente. Mas há quem diga que o javali era, na verdade, Apolo, vingando-se de uma ofensa que Afrodite lhe havia feito.

Certa vez, para fazer ciúmes a Adônis, Afrodite passou varias noites em Lilibeu com o argonauta Butes, com quem teve o filho Erice, que se tornou rei da Sicilia. Com Adônis teve Golgos, fundador de Golgi, no Chipre, e uma filha, Beroe, fundadora de Beroea, na Trácia. Há quem diga inclusive que foi Adônis, e não Dionísio, o pai de seu filho Priapo.

As Moiras determinaram para Afrodite um único dever divino: fazer amor. Mas um dia Atena surpreendeu-a trabalhando secretamente em um tear e foi se queixar de que suas próprias prerrogativas estavam sendo infringidas, ameaçando abandoná-las por completo. Afrodite desculpou-se profusamente e desde então jamais voltou a realizar um trabalho manual sequer.

Os helenos posteriores diminuíram a importância da grande deusa do Mediterrâneo - durante muito tempo, deusa suprema de Corinto, Esparta, Tespias e Atenas -, colocando-a debaixo da tutela masculina e considerando suas solenes orgias sexuais como indiscrições adulteras. Homero descreve Afrodite presa por Hefesto em uma rede que originalmente pertencia a ela, como deusa do mar, e que provavelmente era usada por sua sacerdotisa durante o carnaval da primavera. A sacerdotisa nórdica Holle, ou Gode, fazia o mesmo no Dia de Maio.

Príapo teve origem nas rudes imagens fálicas de madeira que presidiam as orgias dionisíacas. Foi considerado filho de Adônis por causa dos "jardins" em miniatura ofertados durante suas festas. A pereira era consagrada a Hera como deusa principal do Peloponeso e, por conseguinte, ela foi chamada de Apia.

Afrodite Urânia ("rainha da montanha'), ou Ericina ("deusa da urze"), era a deusa-ninfa de meados do verão. Ela destruiu o rei sagrado, com quem copulou no cume de uma montanha, da mesma maneira que a abelha-mestra aniquila o zangão: arrancando-lhe os órgãos sexuais. Isso explica as abelhas amantes da urze e a túnica vermelha, elementos presentes em seu romance com Anquises em cima da montanha, bem como o culto de Cibele, a Afrodite frigia do monte Ida como abelha-mestra, e a extática autocastração de seus sacerdotes em memória de seu amante Atis.

Anquises era um dos vários reis sagrados feridos com um raio ritualístico após terem sido consortes da deusa da monte-em-vida. Na versão mais antiga do mito ele era assassinado, mas nas posteriores consegue escapar: para justificar a história de como o bondoso Eneias, que levou o sagrado Paládio a Roma, conseguiu salvar seu pai quando a cidade de Tróia estava em chamas. Seu nome identifica Afrodite com Isis, cujo esposo Osíris foi castrado por Seth disfarçado de javali. De fato, "Anquises" é um sinônimo de Adônis. Um santuário de Anquises em Egesta, perto do monte Erix, levou Virgílio a concluir que ele morreu em Drépano, uma cidade vizinha, e foi enterrado na montanha. Na Trôade e na Arcádia surgiram outros santuários a ele. Um favo de mel de ouro exposto no santuário de Afrodite, no monte Erix, parece ter sido uma oferenda votiva de Dédalo por ocasião de sua fuga para a Sicília.

Como deusa da morte-em-vida, Afrodite recebeu muitos títulos que parecem incompatíveis com sua beleza e complacência. Em Atenas era conhecida como a Maior das Moiras e irmã das Erínias e, em outros lugares, como Melenis "a negra", nome que significaria, segundo uma ingênua explicação de Pausânias, que a maior parte dos atos sexuais ocorre durante a noite. Outros nomes são: Escócia ("a escura'), Andrófonos ("assassina de homens") e, segundo Plutarco, Epitímbria ("das tumbas").

O mito de Ciniras e Esmirna registra evidentemente um período da História em que o rei sagrado, numa sociedade matrilinear, decidiu prolongar seu reinado para além da duração habitual. E o fez casando-se com a jovem sacerdotisa - em teoria, sua filha - que viria a ser rainha no próximo mandato, para impedir que algum principezinho se casasse com ela e pusesse fim a seu reino.

Adonis (do fenício adon, "senhor") é uma versão grega do semideus sírio, Tamus, o espírito da vegetação anual. Na Síria, na Ásia Menor e na Grécia, o ano sagrado da deusa se dividia em três partes, regidas pelo Leão, pela Cabra e pela Serpente. A Cabra, emblema da parte central, pertencia à deusa amor, Afrodite; a Serpente, emblema da ultima parte, à deusa da morte, Perséfone; e o Leão, emblema da primeira parte, era consagrado à deusa do parto, chamada aqui de Esmirna, que não tinha nenhum direito sobre Adônis. Na Grécia esse calendário deu lugar a um ano de duas estações, dividido no estilo oriental pelos equinócios, como em Esparta e em Delfos, ou pelos solstícios, segundo estilo ocidental de Atenas e Tebas. Isso explica as diferenças entre os respectivos veredictos de Zeus e da deusa da montanha Caliope.

Tamus foi morto por um javali, como diversos personagens míticos semelhantes: Osíris, o Zeus cretense, Anceu da Arcádia, Carmanor da Lídia e o herói irlandês Diarmuid. Esse javali parece uma vez ter sido uma porca com presas em forma de meia-lua, ou seja, a própria deusa na figura de Perséfone. Mas, quando se dividiu o ano, a estação luminosa passou a ser regida pelo rei sagrado, e a metade escura, pelo seu sucessor, o rival, que aparecia disfarçado de javali selvagem - como Seth, quando matou Osíris, ou como Finn mac Cool, quando matou Diarmuid. O sangue de Tamus e uma alegoria das anemonas que cobriam de vermelho as encostas do monte Líbano depois das chuvas invernais. Em Biblos celebrava-se, a cada primavera, a Adônia, festa funeral em homenagem a Tamus. O nascimento de Adônis a partir de uma árvore de mirra - um afrodisíaco bem conhecido - demonstra o caráter orgiástico de seus ritos. As gotas de resina que essa árvore espelia são supostamente as lágrimas por ele derramadas. Higino faz de Ciniras o rei da Esfria, talvez porque o culto a Tamus parecesse ter tido ali sua origem.

Hermafrodito, filho de Afrodite, era tão jovem com cabelos longos e seios de mulher. Tal como a androgina, ou mulher barbuda, o hermafrodita tinha, naturalmente, sua extravagante contrapartida física, mas, como conceitos religiosos, ambos surgiram durante a transição do matriarcado para o patriarcado. Hermafrodito e o rei sagrado, representante da Rainha, que porta seios artificiais. Andrógina é a mãe de um clã pré-helênico que conseguiu evitar o patriarcado, e, para manter seus poderes magistrais ou enobrecer os filhos nascidos dela com um pai-escravo, adota uma barba falsa, como era o costume em Argos. As deusas barbudas, como a Afrodite cipriota, e os deuses efeminados, como Dionísio, correspondem a essas etapas sociais de transição.

Harmonia é, a primeira vista, um nome estranho para uma filha nascida de Afrodite e Ares, mas naquela época, assim como agora, o que prevalecia em um Estado que estava em guerra era mais do que simplesmente carinho e harmonia.

Mitologia - Mitologia Grega
2/28/2021 12:37:09 PM | Por Robert Graves
Os feitos e a natureza de Ares

O Ares trácio adora a batalha pela batalha, e sua irmã Eris está sempre criando motivos para desencadear uma guerra, seja difundindo rumores ou semeando ciúmes e invejas. Como ela, Ares nunca privilegia uma cidade ou um partido, mas luta de um lado ou de outro, de acordo com sua inclinação, deleitando com a matança de gente e o saque de cidades. Todos os seus colegas imortais o odeiam, desde Zeus e Hera até o mais inferior, exceto Eris, Afrodite - que alimenta uma paixão perversa por ele - e o voraz Hades, que dá boas-vindas aos valentes jovens guerreiros mortos em guerras sangrentas.

Ares nem sempre saiu vencedor. Atena, guerreira muito mais hábil derrotou-o duas vezes em combate. Uma vez, os Aloidas o capturaram e o enceraram em um pote de bronze durante 13 meses, até que, semimorto, ele foi libertado por Hermes. Em outra ocasião, Héracles o fez voltar correndo para o Olimpo apavorado. Desprezava profundamente os litigios, nunca se apresentou diante um tribunal como pleiteador e apenas uma vez como acusado, quando os deuses o responsabilizaram pelo horrível assassinato de Halirrotio, filho de Posídon. Ele se justificou com a alegação de que agira para salvar sua filha Alcipe, da Casa de Cecrope, que ia ser violada pelo tal Halirrotio. Como ninguém havia presenciado o incidente, exceto o próprio Ares e Alcipe, que naturalmente confirmou o testemunho do pai, o tribunal o absolveu. Essa foi a primeira sentença pronunciada em um julgamento por assassinato, e a colina onde os procedimentos ocorreram ficou conhecida como Areópago, nome que ainda conserva.

Os atenienses não eram amantes da guerra, a não ser para defender sua liberdade ou por alguma outra razão igualmente urgente, e desprezavam os trácios por serem bárbaros que haviam feito da guerra um passatempo.

No relato de Pausânias sobre o assassinato, Halirrotio já havia conseguido violar Alcipe. Mas Halirrotio pode ser simplesmente um sinônimo de Posídon - e Alcipe, um sinônimo da deusa com cabeça de égua. De fato, o mito evoca o estupro de Démeter cometido por Posídon e faz referência à conquista de Atenas por sua gente, bem como a humilhação da deusa em suas mãos. Mas ele foi alterado por razões patrióticas e associado a uma lenda de algum velho julgamento por assassinato. Areiopagus significa provavelmente "colina da deusa conciliadora", areia sendo um dos títulos de Atena.

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2/28/2021 12:22:08 PM | Por Robert Graves
Os feitos e a natureza de Hestia

O maior mérito de Hestia (Vesta, entre os romanos) e ter sido a única, entre as divindades olímpicas, que nunca participou de guerras ou disputas. Além disso, assim como Artemis e Atena, ela sempre resistiu ao assedio amoroso de deuses, titãs e outros. Assim, depois do destronamento de Cronos, quando Posídon e Apolo apareceram como pretendentes rivais, ela jurou pela cabeça de Zeus que permaneceria virgem para sempre. Em agradecimento por ela ter servido a Paz no Olimpo, Zeus passou a oferecer-lhe a primeira vitima de todo e qualquer sacrifício publico.

Uma vez, em uma festa observada pelos deuses, Priapo, embriagado, tentou viola-la quando todos, já saciados, tinham adormecido. Mas um asno zurrou alto, despertando Hestia, que, ao ver Priapo prestes a montar em cima dela, deu um grito tão pavoroso que ele saiu correndo, tomado de um cômico terror.

Ela é a deusa do lar, que, em cada casa particular e nas cidades e colônias protege todos os que lhe prestam veneração. Hestia é reverenciada universalmente não só por ser a mais amável, correta e caridosa de todo o Olimpo, mas também por ter inventado a arte de construir casas. Seu fogo é tão sagrado que se, por acidente ou em sinal de luto, a lareira de um determinado lar se esfria, ele se ilumina novamente com a ajuda de uma roda de fogo.

O centro da vida grega - até mesmo em Esparta, onde a família havia se subordinado ao Estado - era a lareira doméstica, considerada também altar de sacrifícios. Hestia, por ser sua deusa, representava a segurança pessoal e a felicidade, bem como o dever sagrado da hospitalidade. As estórias das propostas matrimoniais de Posídon e Apolo foram deduzidas talvez com base no culto conjunto dessas três divindades em Delfos. A tentativa de estupro de Priapo é uma advertência anedótica sobre os maus-tratos sacrílegos aos hospedes do sexo feminino, que se encontram sob a proteção do lar doméstico ou publico. Neste caso, inclusive, o asno, símbolo da luxuria, proclama a loucura criminosa de Priapo.

A arcaica imagem nao-iconica branca da Grande Deusa, utilizada em todo o Mediterrâneo oriental, parece ter representado um monte de brasa que se mantém ardendo sob uma camada de cinzas brancas, tendo sido este o sistema mais agradável e econômico de calefação na Antiguidade, pois não produzia fumaça nem dramas e constituía o centro natural das reuniões familiares ou do clã. Em Delfos, o montículo de carvão foi trasladado para um recipiente de pedra calcária, para ser usado ao ar livre, convertendo-se no Onfalo, ou umbigo, representado com frequência nas pinturas de vasos gregos, que supostamente indicava o centro do mundo. Esse objeto sagrado, que sobreviveu às ruinas do santuário, está inscrito com o nome da Mãe Terra. Com suas 11,5 polegadas de altura e 15,5 de diâmetro [28,57 centímetros de altura por 39,37 centímetros de diâmetro], ele tem o tamanho e a forma de um forno a carvão capaz de esquentar uma sala grande. Na época clássica, a pitonisa dispunha da ajuda de um sacerdote encarregado de induzi-la ao transe, queimando grãos de cevada, cânhamo e louro em uma lâmpada de azeite dentro de um espaço fechado, e de interpretar depois o que ela dizia. Mas é provável que uma vez o cânhamo, o louro e a cevada tenham sido postos sobre as cinzas ardentes do montículo de carvão, que é uma forma mais simples e efetiva de produzir fumos narcóticos. Em santuários cretenses e micênicos foram encontradas numerosas conchas triangulares ou em forma de folha, feitas de pedra ou argila - algumas com sinais de sujeição a altas temperaturas, que aparentemente serviam para proteger o fogo sagrado. O montículo de carvão em brasa era colocado às vezes sobre uma mesa de argila redonda com três pernas, pintada de vermelho, branco e preto, que são as cores Lua. Preservaram-se amostras no Peloponeso, em Creta e em - sobre uma delas, proveniente de uma tumba funerária em Zafer Papoura perto de Knossos, ainda havia carvão.

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2/28/2021 12:10:06 PM | Por Robert Graves
Os Filhos de Zeus

Zeus, o eterno enamorado, deitou-se com numerosas ninfas descendentes dos titãs e dos deuses e, depois da criação do homem, deitou-se também com mulheres mortais. Nada menos que quatro divindades olímpicas maiores nasceram-lhe ilegítimas. Primeiro, ele gerou Hermes (Mercúrio) com Maia, filha de Atlas, que o pariu numa caverna do monte Cilene, na Arcádia. Depois, gerou Apolo e Artemis (Diana, entre os romanos) com Leto (Latona, entre os romanos), filha dos titãs Ceo e Febe, tendo-a transformado e a si próprio em codornizes, enquanto copulavam. Mas a ciumenta Hera mandou a serpente Piton perseguir Leto mundo afora e decretou que ela não deveria dar a luz em nenhum lugar onde o sol brilhasse. Carregada pelas asas do Vento Sul (Austro), Leto finalmente chegou a Ortigia, perto de Delos, onde pariu Artemis, que, mal acabara de nascer, pôs-se a ajudar a mãe a cruzar o estreito istmo. Uma vez lá, entre uma oliveira e uma tamareira que cresciam no lado norte do monte Cinto, em Delos, Leto pariu Apolo depois de nove dias de trabalho. Delos, até então uma ilha flutuante, tornou-se imóvel, fixada no mar, e, por decreto, ninguém tem agora permissão de nascer ou morrer ali: doentes e mulheres gravidas são transportados em balsas para Ortigia.

A mãe de Dionísio, filho de Zeus, recebe nomes variados: alguns dizem que teria sido Demeter, ou Io; há quem a chame de Dione; outros, de Perséfone, com quem Zeus copulou depois de assumir a forma de uma serpente; há ainda quem diga ter sido Lete.

Mas a historia mais difundida reza que Zeus, disfarçado de mortal, teve um caso de amor secreto com Semele ("lua"), filha do rei Cadmo de Tebas, e que a ciumenta Hera, revestida das feições de Beroe, velha ama de Semele, recomendou a jovem, já grávida de seis meses, que exigisse de seu misterioso amante que ele parasse de engana-la, e lhe revelasse sua verdadeira forma e natureza. Senão, como poderia ela saber se ele não era um monstro? Semele acatou o conselho e, diante da recusa de Zeus a seu apelo, passou a negar-lhe acesso a seu leito. Ele, então, furioso, surgiu na forma de trovão e raio, fulminando-a. Mas Hermes conseguiu salvar o filho que estava no sexto mês de gestação e o costurou dentro da coxa de Zeus, para que ali maturasse por mais três meses. No tempo devido, ele nasceu. Por isso Dionísio é chamado de "nascido duas vezes" ou "a criança da porta dupla".

Os estupros cometidos por Zeus referem-se, aparentemente, às conquistas helênicas dos antigos templos da deusa, como o do monte Cilene, e seus casamentos, a um antigo costume de dar titulo de "Zeus" ao rei sagrado do culto do carvalho. Hermes, seu filho, nascido após Zeus haver estuprado Maia - titulo de uma deusa da Terra representada por uma velha -, originalmente não era um deus, mas a virtude totêmica de um pilar fálico, ou um marco de pedras. Tais pilares constituíam o centro de uma dança orgíaca em honra a deusa.

Um componente na divindade de Apolo parece ter sido um camundongo oracular - Apolo Esminteu ("Camundongo-Apolo") figura entre os seus primeiros títulos - consultado num tempo da Grande Deusa, o que talvez explique por que ele nasceu em um lugar onde o sol jamais brilhou, ou seja, no subterrâneo. Camundongos estariam associados a doenças e cura, por isso os helenos veneravam Apolo como deus da medicina e da profecia. Registros mais tardios relatam que ele nasceu debaixo de uma oliveira e de uma tamareira, na encosta setentrional de uma montanha. Era chamado de irmão gêmeo de Artemis, deusa do parto. Sua mãe Leto - filha dos titãs Febe ("lua') e Ceo ("inteligência') -, conhecida no Egito e na Palestina como Lat, tornou-se deusa da fertilidade da ramareira e da oliveira: dai sua chegada a Grécia com o Vento Sul. Na Itália, ela se tornou Latona ("rainha Lat"). Sua briga com Hera sugere um conflito entre os primeiros imigrantes da Palestina e as primeiras tribos nativas que adoravam uma sutra deusa da Terra. O culto ao camundongo, que ela parece ter trazido consigo, estabeleceu-se com firmeza na Palestina (I Samuel VI. 4 e Isaias LXVI. 17). O fato de Piton perseguir Apolo evoca o uso de cobras, nas casas gregas e romanas, para afastar camundongos. Mas Apolo era também o fantasma do rei sagrado que havia comido a maçã - a palavra Apolo deriva, provavelmente, da raiz abol "maçã", e não de apollunai, "destruir", como geralmente se considera.

O pássaro consagrado a Artemis, originalmente uma deusa orgíaca, era a lasciva codorniz. Bandos de codornizes faziam de Ortígia um lugar de descanso durante sua migração de primavera rumo ao norte. A estoria de que Delos, local de nascimento de Apolo, havia sido até então uma ilha flutuante deve ser uma compreensão errônea de um registro que anunciava o estabelecimento oficial de seu local de nascimento, haja vista que Homero (Ilíada IV 101) o chama de "licigeno", isto é, "nascido em Licia" (o gentílico seria lício), e que os efésios vangloriavam-se do fato de ele ter nascido em Ortigia, perto de Éfeso (Tacito: Anais 111. 61). Tanto os tegirenses beocios quanto os zosteranos áticos reivindicavam-no também como seu filho nativo (Estevão de Bizâncio sub Tegira).

Ao que tudo indica, Dionísio surgiu inicialmente como uma espécie de rei sagrado que, no sétimo mês depois do solstício de inverno, foi fulminado pela deusa e devorado por suas sacerdotisas. Isso explica suas mães Dione, a deusa do carvalho; Io e Demeter, deusas do trigo; e Perséfone, deusa da morte. Plutarco, ao chama-lo de "Dionísio, filho de Lete ("esquecimento"), refere-se ao seu aspecto tardio de deus da vinha.

A estória de Semele, filha de Cadmo, parece registrar a ação sumaria tomada por Hellenese da Beocia, ao terminar a tradição do sacrifício real: o Zeus Olímpico afirma seu poder, põe o rei condenado sob sua proteção e fulmina a deusa com seu próprio raio. Dionísio, assim, torna-se imortal, após renascer de seu pai imortal. Semele foi venerada em Atenas durante a Lenaea, Festim das Mulheres Selvagens, ocasião em que um Touro do Ano, representando Dioníso, era cortado em nove pedaços e sacrificado em sua honra: um pedaço era queimado, enquanto o restante era comido cru pelas adoradoras. Semele é geralmente explicada como uma forma de Selene ("lua'), e nove era o número tradicional das sacerdotisas orgíacas da Lua que participavam de tais festins - nove delas foram retratadas dançando em torno do rei sagrado numa pintura rupestre em Cogul, e outras nove mataram e devoraram o acolito de são Sansão de Dol na Idade Media.

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2/27/2021 5:54:22 PM | Por Robert Graves
Os feitos e a natureza de Apolo

Apolo, filho de Zeus e Leto, nasceu de sete meses, mas os deuses crescem muito depressa. Temis o alimentou com néctar e ambrosia, e quando amanheceu o quarto dia ele pediu um arco-e-flecha, providenciado na mesma hora por Hefesto. Ao sair de Delos, dirigiu-se diretamente ao monte Párnaso, onde estava à sua espreita a serpente Piton, inimiga de sua mãe, e feriu-a gravemente com suas flechas. Piton fugiu para o Oraculo da Mãe Terra na cidade de Delfos, assim chamada em homenagem a seu companheiro, o monstro Delfim. Mas Apolo atreveu-se a persegui-la ate o santuário e ali a matou, junto ao precipício sagrado.

Informado pela Mãe Terra sobre esse crime, Zeus não só ordenou a Apolo que fosse a Tempe purificar-se como também instituiu os jogos piticos em homenagem a Piton, encarregando-o de presidi-los como penitência. Descaradamente, Apolo desobedeceu a ordem de Zeus e, em vez de ir a Tempe, foi purificar-se em Aigialeia, acompanhado de Artemis. Depois, como não gostara do lugar, velejou em direção a Tarra, em Creta, onde o rei Carmanor celebrou a cerimônia.

Ao regressar a Grécia, Apolo saiu a procura de Pã, o velho e desacreditado deus árcade com pernas de cabra, e, depois de persuadi-lo a revelar-lhe a arte da profecia, apoderou-se do Oráculo de Delfos e manteve sua sacerdotisa, denominada pitonisa, sob suas ordens.

Ao saber das noticias, Leto foi com Artemis a Delfos, onde buscou uma caverna sagrada para realizar um rito particular. O gigante Titio interrompeu sua veneração e estava tentando viola-la quando, ao ouvir gritos, Apolo e Artemis saíram correndo e o mataram com uma salva de flechas - vingança que Zeus, pai do gigante, achou por bem classificar de piedosa. No Tártaro, Titio havia sido torturado: seus braços e pernas foram esticados e presos firmemente ao chão, fazendo com que seu corpo ocupasse uma superfície de nada menos que nove acres e ficasse a mercê de dois abutres, que lhe devoravam o fígado.

Em seguida, Apolo matou o sátiro Mársias, seguidor da deusa Cibele. Isso aconteceu da seguinte forma: um dia, Atena confeccionou uma flauta dupla com ossos de cervo e tocou-a em um banquete dos deuses. No início, ela não entendeu por que Hera e Afrodite riam baixinho, tapando a boca com as mãos, enquanto os outros deuses pareciam deleitar-se com sua musica. Intrigada, Atena se retirou, sozinha, para um bosque frígio, empunhou a flauta junto a um ribeirão e contemplou sua imagem na água enquanto tocava. Ao dar-se conta de como a face azulada e as bochechas inchadas de ar tornavam grotesca sua aparência, ela jogou fora a flauta e lançou uma maldição sobre quem a encontrasse.

Mársias foi a inocente vítima dessa maldição. Ele tropeçou na flauta e, mesmo antes de leva-la aos lábios, ela começou a tocar sozinha, inspirada pela recordação da musica de Atena. E assim ele percorreu a Frígia, acompanhando o séquito de Cibele e deleitando os camponeses ignorantes. Estes o aclamaram, dizendo que nem mesmo Apolo, com sua lira, seria capaz de compor musica melhor, e Mársias, por ingenuidade, não se atreveu a contradize-los. Isso, claro, despertou a ira de Apolo, que lhe propôs uma competição, cujo vencedor teria o direito de infligir ao adversário o castigo que desejasse. Mársias aceitou o desafio, e Apolo convocou as musas como árbitros do torneio - que terminou empatado, porque elas ficaram encantadas com os dois instrumentos, ate que Apolo gritou a Mársias:

- Desafio você a fazer com seu instrumento o mesmo que faço com o meu: colocá-lo de ponta-cabeça e tocá-lo, cantando ao mesmo tempo!

Evidentemente, como tal feito era impossível com uma flauta, Mársias fracassou no desafio, ao passo que Apolo colocou sua lira ao contrário e entoou hinos tão melodiosos em louvor aos deuses olímpicos que as musas se viram na obrigação de emitir um veredicto a seu favor. Depois, por toda aquela doçura dissimulada, Apolo vingou-se de Mársias da maneira mais cruel: esfolou-o vivo e pendurou sua pele em um pinheiro (segundo alguns, num plátano), junto à foz de no que agora leva o seu nome.

Mais tarde, Apolo venceu um segundo desafio musical, presidido pelo rei. Dessa vez, derrotou Pã. Desde que se tornou reconhecido como o deus musica, tocou sempre sua lira de sete cordas nos banquetes dos deuses. Outro de seus deveres era o de guardar os rebanhos e as manadas que os deuses tinham em Pieria, trabalho que, mais tarde, ele acabou delegando a Hermes.

Apesar de negar-se a ter ligações matrimoniais, Apolo deixou grávidas várias ninfas e mulheres mortais, entre elas Ftia, com quem teve Doro, Polidectes e Laodoco; a musa Talia, que deu a luz os coribantes; Coronis, mãe de Asclépio; Aria, que lhe deu Mileto; e Cirene, mãe de Aristeu.

Apolo seduziu também a ninfa Driopeia, que cuidava do gado de seu pai no monte Eta, na companhia de suas amigas, as hamadriades. Apolo se disfarçou de tartaruga, com a qual todas brincaram, e, quando Driopeia a colocou sobre o peito, ele se converteu numa serpente sibilance, assustando as hamadriades e unindo-se a Driopeia. Ela então lhe deu Anfisso, que fundou a cidade de Eta e construiu um templo em homenagem ao pai, onde Driopeia serviu como sacerdotisa, ate o dia em que as hamadriades a raptaram e deixaram um choupo em seu lugar.

Apolo nem sempre teve sorte no amor. Certa vez, tentou roubar Marpessa de Idas, mas ela permaneceu fiel ao marido. De outra feita, perseguiu Dafne, a ninfa da montanha, sacerdotisa da Mãe Terra, filha do rio Peneu, na Tessalia, mas, quando a alcançou, ela suplicou por ajuda a Mãe Terra, que a fez desaparecer em um instante e reaparecer em Creta, onde se tornou conhecida como Pasifae. A Mãe Terra deixou um loureiro em seu lugar, e, com suas folhas, Apolo fez uma grinalda para se consolar.

Cabe acrescentar que sua tentativa de se aproximar de Dafne não foi um impulso repentino. Fazia muito tempo que ele andava apaixonado por ela, e já havia causado a morte de seu rival Leucipo, filho de Enomao, que se disfarçara de mulher para participar das orgias montanhesas de Dafne. Tendo se inteirado disso por adivinhação, Apolo sugeriu às ninfas que se banhassem desnudas, para se assegurarem de que todas as que ali estavam eram mulheres. As ninfas logo descobriram a impostura de Leucipo e o esquartejaram.

O mesmo aconteceu com o belo jovem Jacinto, príncipe espartano, pelo qual se apaixonou não só o poeta Tamiris - o primeiro homem a cortejar alguém do mesmo sexo - como também o próprio Apolo, o primeiro deus a faze-lo. Apolo não considerou Tamiris um rival serio. Tendo ouvido que o poeta se vangloriava de poder superar as musas com seu canto, ele, ardilosamente, tratou de informa-las. Elas não tardaram em privar Tamiris de sua voz, de sua visão e de sua memoria para tocar a harpa. Mas o Vento Oeste (Zefiro) também se enamorara de Jacinto e, um dia, ao ver Apolo ensinando o jovem a arremessar um disco, ficou loucamente enciumado, agarrou o disco no ar e lançou-o contra o crânio de Jacinto, matando-o. De seu sangue brotou a flor que leva seu nome, na qual ainda se podem ver suas iniciais.

Apolo enfureceu Zeus apenas uma vez, depois da famosa conspiração para destrona-lo. Foi quando seu filho Asclépio (Esculápio), o medico, cometeu a temeridade de ressuscitar um morto, roubando assim um súdito de Hades. Este, naturalmente, apresentou queixa ao Olimpo e, na sequencia, Zeus fulminou Asclépio, e Apolo, para se vingar, matou os ciclopes. Encolerizado pela perda de seus armeiros, Zeus só não o condenou ao desterro perpetuo no Tártaro porque Leto, implorando-lhe clemencia, comprometeu-se a fazer com que Apolo melhorasse sua conduta. A sentença reduziu-se a um ano de trabalhos forçados, e Apolo foi cuidar dos rebanhos de ovelhas do rei Admeto, de Teras. Seguindo o conselho de Leto, ele não só cumpriu humildemente sua pena como também trouxe grandes benefícios a Admeto.

Tendo aprendido a lição, ele passou a pregar a moderação em todas as coisas. As frases "Conhece-te a ti mesmo!" e "Nada em excesso!" estavam sempre em seus lábios. Trouxe para Delfos as musas de sua morada no monte Helicon, moderou seu exaltado frenesi e as orientou para tipos de danças mais formais e decorosas.

A historia de Apolo é confusa - Os gregos o fizeram filho de Leto, deusa conhecida pelo nome de Lat no sul da Palestina, mas era também deus dos hiperboreos ("homens de além do Setentrião"), que Hecataeus (Diodoro Siculo: 11.47) identificava claramente como os britânicos, embora Píndaro (Odes piticas X. 50-55) os considerasse líbios. Delos era o centro desse culto hiperbóreo que aparentemente estendia-se pelo sudeste ate a Nabateia e a Palestina, pelo noroeste até a Bretanha, e incluía Atenas. Havia um intercambio constante de visitas entre os povos unidos por tal culto (Diodoro Siculo: loc. cit.).

Entre os hiperbóreos, Apolo sacrificou quantidades enormes de asnos (Píndaro: loc. cit.), o que o identifica como o "Menino Hórus", cuja vitoria sobre seu inimigo Seth os egípcios celebravam anualmente, impelindo burros selvagens a um precipício (Plutarco: Sobre Isis e Osíris 30). Hórus queria vingar-se de Seth pelo assassinato de seu pai Osíris, o rei sagrado, amante da deusa-Lua tripla (Ísis, ou Lat), que tinha sido sacrificado pelo seu sucessor Seth no solstício estival e no invernal, e do qual o próprio Horus era a reencarnação. O mito da perseguição a Leto por parte de Píton é análogo ao da perseguição a Isis por parte de Seth (durante os 72 dias mais quentes do ano). Além disso, Píton pode ser identificado como Tifon, o Seth grego, no Hino homérico a Apolo é também pelo escoliasta de Apolônio de Rodes. De fato, o Apolo hiperbóreo é um Hórus grego.

Mas ao mito deu-se um contorno politico: diz-se que Píton foi enviado contra Leto por Hera, que o havia parido partenogenicamente, a fim de contrariar Zeus (Hino homérico a Apolo 305). Apolo, apos matar Píton (e supostamente também seu companheiro Delfim), apodera-se do templo oracular da Mãe Terra em Delfos - por ser Hera a Mãe Terra, ou Delfim, em seu aspecto profético. Parece que certos helenos do norte, aliados dos trácio-líbios, invadiram a Grécia central e o Peloponeso, onde enfrentaram a oposição dos adoradores pré-helênicos da deusa Terra, capturando, contudo, seus principais santuários oraculares. Em Delfos, eles destruíram a sagrada serpente oracular - uma serpente parecida era guardada no Erecteion de Atenas - e se apoderaram do Oraculo em nome de seu deus Apolo Esminteu. Esminteu ("murídeo"), assim como Esmun, o deus cananeu da cura, tinha como emblema um camundongo curativo. Os invasores concordaram em identifica-lo como Apolo, o Hórus hiperbóreo venerado par seus aliados. A fim de aplacar a opinião publica em Delfos, instituíram-se jogos funerários periódicos em homenagem ao herói morto Píton, e sua sacerdotisa foi mantida no cargo.

Brizo ("apaziguadora"), a deusa-Lua de Delos, indistinguível de Leto, pode ser identificada como a deusa tripla hiperbórea Brigite, cristianizada como Santa Brigite ou Santa Brígida. Brigite era a padroeira de todas as artes, e Apolo seguiu seu exemplo. O atentado do gigante Titio contra Leto aponta uma fracassada tentativa de sublevação por parte dos montanheses da Fócida contra os invasores.

As vitórias de Apolo sobre Mársias e Pã comemoram as conquistas helênicas da Frigia e da Arcádia e a consequente substituição, nessas regiões, de instrumentos de sopro por instrumentos de corda, exceto entre os camponeses. O castigo de Mársias pode referir-se ao ritual de esfolar o rei sagrado - assim como Atena despojou Palas de sua égide magica - ou ao costume de remover toda a cortiça de um amieiro jovem para se confeccionar uma flauta de pastor, sendo o amieiro personificado como deus ou semideus. Apolo era aclamado como antecessor dos gregos dórios e dos milesios, que lhe rendiam homenagens especiais. E os coribantes, bailarinos no festival de solstício de inverno, eram chamados de filhos da musa Talia com Apolo, pois ele era o deus da musica.

Sua perseguição a Dafne, a ninfa da montanha, filha do rio Peneu e sacerdotisa da Mãe Terra, aparentemente se refere a captura de Tempe por parte dos helenos. Ali, a deusa Dafene ("a sanguinária') era venerada por uma ordem de menades orgiásticas que mascavam folhas de louro. Após ter suprimido a ordem - o relato de Plutarco sugere que a sacerdotisa fugiu para Creta, onde a deusa-Lua era chamada de Pasifae, Apolo apoderou-se do louro, que, posteriormente, só a pitonisa poderia mascar. Tanto em Tempe como em Figália, Dafene devia ter cabeça de égua. Leucipo ("cavalo branco") era o rei sagrado do culto local do cavalo, esquartejado anualmente pelas mulheres selvagens, que se banhavam para purificar-se depois de mata-lo, e não antes.

O fato de Driopéia ter sido seduzida por Apolo em Oeta registra talvez a substituição do culto local ao carvalho pelo culto a Apolo, a quem o álamo era consagrado. O mesmo se pode dizer da sedução que exerceu sobre Aria. Seu disfarce de tartaruga é uma referência a lira que havia comprado de Hermes. O nome Ftia sugere o aspecto outonal da deusa. A fracassada tentativa com Marpessa ("a que agarra") parece evocar o fracasso de Apolo, ao querer apoderar-se de um templo messenio: o da deusa do trigo em seu aspecto de Porca. Seu servilismo diante de Admeto de Feres pode evocar um acontecimento histórico: a humilhação imposta a seus sacerdotes, como forma de punição pelo massacre de uma corporação de ferreiros pré-helênicos que estava sob a proteção de Zeus.

O mito de Jacinto, que, a primeira vista, parece ser apenas uma fabula sentimental para explicar o símbolo do jacinto grego, faz alusão ao herói-flor cretense Jacinto, aparentemente chamado também de Narciso, cujo culto foi introduzido na Grécia micênica e deu nome ao ultimo mês do verão em Creta, Rodes, Cos, Tira e Esparta. O Apolo dórico usurpou o nome de Jacinto em Tarento, onde o ultimo tinha uma tumba de herói. Em Amiclas, cidade micênica, outra "tumba de jacinto" converteu-se nas fundações do trono de Apolo. Naquela evoca, Apolo já era imortal, ao passo que Jacinto reinou somente durante uma estação. Sua morte em consequência de um golpe de disco recorda a de seu sobrinho Acrisio.

Apolo teve um filho, Asclépio, com Coronis ("corvo"). Este era provavelmente um dos títulos de Atena, mas os atenienses sempre negaram que ela tivesse filhos, e por isso distorceram o mito.

Na época clássica, a musica, a poesia, a filosofia, a astronomia, a matemática, a medicina e as ciências em geral estiveram sob o controle de Apolo. Inimigo do barbarismo, ele pregou a moderação em tudo. As sete cordas de sua lira estavam conectadas as sete vogais do alfabeto grego posterior, eram imbuídas de um significado místico e utilizadas como terapia musical. Finalmente, devido a sua identificação com o Menino Hórus, uma concepção solar, Apolo foi adorado como o Sol, cujo culto coríntio havia sido arrebatado pelo Zeus Solar. Sua irmã Artemis foi corretamente identificada como a Lua.

Cícero, em seu Ensaio Da natureza dos deuses (III. 23), estabelece que Apolo, filho de Leto, era o quarto de uma antiga serie de outros, homônimos: distinguem-se também Apolo, filho de Hefesto; Apolo, pai dos coribantes cretenses; e o Apolo que entregou suas leis a Arcádia.

Sem dúvida, o assassinato de Píton cometido por Apolo não é um mito tão simples como parece à primeira vista, pois a pedra Onfalo sobre a qual a pitonisa se sentava era, tradicionalmente, a tumba do herói encamado na serpente, cujos oráculos ela transmitia (Hesiquio sub o Tumulo de Arcos; Varrão: Sobre os idiomas latinos VII. 17). O sacerdote helênico de Apolo usurpou as funções do rei sagrado que, legitima e cerimonialmente, sempre havia matado seu predecessor, o herói. Isso se demonstra no rito das Esteptérias registrado por Plutarco em Por que os oráculos silenciam (15). A cada nove anos, no chão de terra batida junto a Delfos, construía-se uma cabana que representava a moradia do rei, e que era atacada repentinamente numa noite por... [aqui há uma lacuna no relato]... A mesa com as primeiras frutas era derrubada, ateava-se fogo a cabana, e os que empunhavam as tochas saiam correndo do santuário sem olhar para trás. Mais tarde, o jovem que havia participado da façanha ia purificar-se em Tempe, de onde retomava triunfante e coroado, carregando um ramo de loureiro.

O planejado assalto-surpresa ao morador da cabana faz lembrar o misterioso assassinato de Romulo por seus companheiros, bem como o sacrifício anual no festival das Bufonias de Atenas, onde os sacerdotes matavam o Zeus-boi com um machado duplo e saiam correndo sem olhar para trás. Depois, comiam a carne em um banquete publico, realizavam uma representação mimica da ressurreição do boi e levavam o machado a um tribunal, acusando-o de haver cometido um sacrilégio.

Em Delfos e em Knossos, o rei sagrado deve ter reinado até o nono ano. Sem duvida, o menino ia a Tempe porque o culto a Apolo havia se originado ali.

Mitologia - Mitologia Grega
2/21/2021 6:14:52 PM | Por Robert Graves
Hera e seus filhos

Hera (Juno), filha de Cronos e Reia, nasceu na ilha de Samos ou, segundo outras fontes, em Argos, e foi criada na Arcádia por Temeno, filho de Pelasgo. As Estações eram suas pajens. Após haver banido seu pai Cronos, Zeus, irmão gêmeo de Hera, procurou-a em Knossos, em Creta ou, diz-se, no monte Tornax (chamado agora de montanha do Cuco), na Argólida, onde a cortejou, primeiro sem nenhum sucesso. Somente quando ele se disfarçou de cuco molhado e que Hera teve pena do irmão e o aqueceu carinhosamente no peito. Zeus, então, retomou imediatamente sua forma verdadeira e a violou, forçando-a a casar-se com ele por causa da vergonha.

Todos os deuses trouxeram presentes de casamento. A Mãe Terra, particularmente, deu a Hera uma arvore com maças de ouro, mais tarde guardada pelas Hesperides no pomar de Hera, no monte Atlas. Ela e Zeus passaram sua lua-de-mel, que durou trezentos anos, em Samos. Hera se banha regularmente na fonte de Canato, perto de Argos, renovando, assim, sua virgindade.

Hera e Zeus tiveram como filhos as divindades Ares (Marte), Hefesto (Vulcano) e Hebe (Juventas), embora se diga que Hera teria concebido Ares e sua irmã gêmea Eris (Discórdia) ao tocar uma certa flor, e Hebe, ao tocar uma alface, é que Hefesto seria também seu filho partenogenico - milagre em que ele não acreditava até aprisiona-la em uma cadeira mecânica, cujos braços se dobravam em torno da pessoa sentada, forçando-a a jurar pelo rio Estige que não estava mentindo. Diz-se também que Hefesto era seu filho com Talo, sobrinho de Dedalo.

O nome de Hera, geralmente considerado como uma palavra grega para "senhora", talvez represente uma Herwã ("Protetora') original. Ela é a Grande Deusa pré-helênica. Samos e Argos eram as sedes principais de sua adoração na Grécia, embora os arcades alegassem ter sido os primeiros a cultua-la, já desde os tempos de seu ancestral autóctone Pelasgo ("antigo"). O casamento forcado de Hera com Zeus comemora as conquistas de Creta e da Grécia micênica e a queda da supremacia de Hera em ambos os países. É provável que o disfarce de cuco molhado usado por Zeus para se aproximar de Hera corresponda a chegada de certos fugitivos helenos à Creta; que, uma vez aceitos para trabalhar na guarda real, urdiram uma conspiração palaciana e tomaram o reino. Knossos foi saqueada duas vezes; ao que tudo indica, pelos helenos, em torno de 1700 a.e.c. e de 1400 a.e.c. Micenas foi tomada pelos aqueus um século depois. O deus Indra, no Ramayana, havia cortejado uma ninfa disfarçado de cuco. Agora, era Zeus que tomada emprestado o cetro de Hera, sobrepujando-a com o pássaro. Em Micenas foram encontradas estatuetas folheadas a ouro de uma deusa argiva nua segurando cucos, bem como poleiros de cuco numa maquete de templo folheada a ouro do mesmo lugar. No famoso sarcófago cretense de Hagia Triada, a ave encontra-se empoleirada em um machado duplo.

Hebe, deusa em forma de criança, tornou-se copeira dos deuses no culto olímpico. Por fim casou-se com Héracles, após Ganimedes usurpar o cargo dela. "Hefesto" parece ter sido um titulo do rei sagrado como semideus solar, e "Ares", um título de seu comandante militar, ou tanist, cujo emblema era o javali. Ambos se tornaram nomes divinos quando se estabeleceu o culto olímpico e foram escolhidos para desempenhar os papeis, respectivamente, de deus da guerra e deus ferreiro. A "certa flor" deve ter sido provavelmente a flor do espinheiro-branco: Ovídio faz a deusa Flora - a cujo culto está associada a flor do espinheiro-branco - chamar a atenção de Hera para a flor. O espinheiro-de-maio, ou espinheiro-branco, esta ligado à concepção miraculosa no mito popular europeu: na literatura celta, sua "irmã" é o abrunheiro, símbolo da Disputa - a gêmea de Ares, Eris.

Talo (ou Ácale), o ferreiro, era um herói cretense, filho da irmã de Dedalo, Perdiz, com quem o mitógrafo identifica Hera. Perdizes, consagradas a Grande Deusa, estavam de certo modo presentes nas orgias do equinócio de Primavera no Mediterrâneo oriental, através da apresentação de uma dança claudicante imitando perdigões. As gêmeas, segundo Aristóteles, Plinio e Eliano, eram capazes de conceber apenas ouvindo a voz do macho. Hefesto e Talo parecem ser o mesmo personagem partenogênico: ambos foram subjugados por rivais furiosos originalmente em honra à sua deusa-mãe.

Em Argos, a famosa estátua de Hera estava sentada em um trono de ouro e marfim. A historia de seu aprisionamento em uma cadeira deve ter surgido do hábito grego de acorrentar estatuas divinas a seus tronos a fim de "evitar fugas". Por perder uma estatua antiga de seu deus ou deusa, uma cidade poderia ser privada da proteção divina, e por isso os romanos adotaram um costume educadamente chamado de "atrair" os deuses a Roma - que, na época imperial, tornara-se um deposito de imagens roubadas. "As Estações eram suas pajens" e uma maneira de dizer que Hera era uma deusa do ano calendarico. Dai o cuco da primavera no seu cetro e a romã madura do outono tardio, que ela carregava na mão esquerda para simbolizar a morte do ano.

Um herói, como a palavra indica, era um rei sagrado, oferecido em sacrifício a Hera, cujo corpo estava a salvo debaixo da terra e cuja alma fora desfrutar o paraíso, atrás do Setentrião. Suas maçãs douradas, nos mitos grego e celta, eram passaportes para esse paraíso.

O banho anual com que Hera renovava sua virgindade era também tomado por Afrodite em Pafos. Essa parece ter sido a cerimonia de purificação prescrita para a Sacerdotisa da Lua após o assassinato de seu amante, o rei sagrado. Hera, por ser a deusa do ano vegetativo, da primavera, do verão e do outono (simbolizados também pelas luas nova, cheia e velha), era venerada em Estinfalo como Criança, Noiva e Viúva.

A lua-de-mel em Samos durou trezentos anos: talvez se tratasse do ano sagrado samiano, que, assim como o etrusco, consistia em dez meses de trinta dias cada: janeiro e fevereiro eram omitidos. Cada dia durou um ano. Mas o mitógrafo talvez queira indicar que se passaram trezentos anos até que os helenos impingissem a monogamia ao povo de Hera.

Mitologia - Mitologia Grega
2/21/2021 1:18:28 PM | Por Robert Graves
As origens de Eros

Alguns estudiosos afirmam que Eros, nascido do ovo primordial engendrado pela Noite, foi o primeiro dos deuses, pois sem ele nenhum dos outros poderia ter nascido. Consideram-no contemporâneo da Mãe Terra e de Tártaro e negam que tivesse pai ou mãe, a não ser que tenha sido obra de Ilitia, a deusa do parto. Outros dizem que era filho de Afrodite com Hermes ou com Ares, ou com o próprio pai dela, Zeus, ou filho de Iris com o Vento Oeste (Zefiro). Ele era um garoto travesso que não demonstrava nenhum respeito pela idade ou pela posição social, mas voava por ai com asas douradas, lançando flechas farpadas aleatória ou intencionalmente, incendiando corações com suas tochas formidáveis.

Para Hesíodo, Eros ("paixão sexual") era uma mera abstração. Os gregos primitivos o retratavam como um Ker, ou um "mal" transcendente, como a velhice ou a peste, no sentido de que a paixão sexual fora de controle poderia perturbar a ordem social. Mais tarde, entretanto, os poetas descobriram um prazer perverso em suas artimanhas e, na época de Praxiteles, já o assimilavam como um jovem belo e sensível. Seu templo mais famoso era o de Tespias, onde os beocios o veneravam como um simples pilar fálico - o pastoral Hermes, ou Priapo, com um nome diferente. Os numerosos relatos sobre sua ascendência são auto-explicativos. Hermes era um deus fálico. Ares, como um deus da guerra, incrementava de desejo as mulheres dos guerreiros. O fato de Afrodite ter sido a mãe e Zeus, o pai de Eros é uma indicação de que a paixão sexual não se resumia ao incesto. Seu nascimento a partir do Arco-iris e do Vento Oeste não passa de uma fantasia lírica. llitia, aquela que vem em auxilio as mulheres no leito do parto, era um dos títulos de Artemis, significando que não há amor mais forte do que o amor materno.

Eros nunca foi considerado um deus suficientemente responsável para figurar entre os Doze da família governante do Olimpo.

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2/21/2021 1:13:13 PM | Por Robert Graves
As origens de Afrodite

Afrodite (Vênus), deusa do desejo, surgiu nua da espuma do mar e, cavalgando uma concha de vieira, onde primeiro pôs os pés foi na ilha de Citera. Porém, considerado-a apenas uma ilhota, cruzou o Peloponeso e, finalmente, passou a residir em Pafos, no Chipre, ainda hoje a principal sede de seu culto. Plantas e flores cresciam por onde ela pisasse. Em Pafos, as Estações, filhas de Temis, apressaram-se em vesti-la e adorná-la.

Há quem afirme que ela surgiu da espuma formada pelos testículos de Urano, quando Cronos os atirou ao mar. Conta-se também que Zeus a gerara com Dione, filha de Oceano e Tetis, a ninfa do mar, ou do Céu com a Terra. Mas todos concordam que ela sustem o ar, acompanhada por pombas e pardais1.

Afrodite ("nascida da espuma') é a mesma deusa com amplos poderes que surgiu do Caos e dançou sobre o mar, tendo sido venerada na Síria e na Palestina como Ishtar ou Ashtaroth. Seu mais famoso centro de adoração era Pafos, onde a imagem aniconica original da deusa é ainda visível por entre as rumas do grandioso templo romano. La, em toda primavera, suas sacerdotisas banhavam-se no mar e retornavam renovadas.

Ela é chamada de filha de Dione, porque Dione era a deusa do carvalho, onde a pomba apaixonada fazia seu ninho. Zeus alegou ser pai de Afrodite apos apoderar-se do Oraculo de Dione em Dodona, portanto Dione tornou-se sua mãe. "Tetis" e "Thetis" são nomes da deusa como Criadora (formados, assim como "Temis" e "Teseu", de tithenai, "dispor" ou "ordenar") e como deusa do mar, desde o momento em que começou a haver vida no mar2. Pombas e pardais eram famosos pela lascívia. Os frutos do mar ainda são considerados, por todo o Mediterrâneo, afrodisíacos.

Citera foi um importante centro do comércio cretense com o Peloponeso e deve ter sido por ali que a adoração a Afrodite entrou na Grécia. A deusa cretense tinha estreitos laços com o mar. Conchas cobriam o chão de seu palácio-santuário em Knossos. Ela é representada em cima de uma pedra preciosa da caverna Ideana, soprando uma concha de tritão, com uma anêmona-do-mar ao lado de seu altar. O ouriço-do-mar e a siba eram consagrados a ela. Uma concha de tritão foi encontrada em seu antigo santuário de Festo, e muitas outras mais, nas tumbas minoicas tardias, algumas delas sendo replicas de terracota.

Mitologia - Mitologia Grega
2/21/2021 1:09:07 PM | Por Robert Graves
Os Feitos e a Natureza de Pã

Vários deuses e deusas poderosos da Grécia jamais se incluíram entre os Doze Olímpicos. Pã, por exemplo, um tipo humilde, agora morto, contentou-se em viver sobre a terra na Arcádia rural. Hades, Perséfone e Hécate sabiam que sua presença não era bem-vinda no Olimpo. A Mãe Terra, por sua vez, era demasiado velha e apegada a seus hábitos para se adaptar à vida familiar de seus netos e bisnetos. Contam que Hermes concebeu Pã com Driopéia, filha de Dríope; ou com a ninfa Eneis; ou com Penélope, mulher de Odisseu, que ele visitou sob a forma de um carneiro; ou com a cabra Amaltéia. Diz-se que ele era tão feio quando nasceu, com chifres, barba, rabo e pés de bode, que sua mãe fugiu assustada e Hermes o levou ao Olimpo para divertir os deuses. Mas Pã era irmão adotivo de Zeus e, portanto, muito mais velho que Hermes ou Penélope, a qual, segundo outra versão, o teria concebido com todos os pretendentes que a cortejaram durante a ausência de Odisseu. Há também quem o considere filho de Cronos e Réia: ou de Zeus e Híbris, que é a explicação mais plausível.

Ele vivia na Arcádia, onde cuidava de seus rebanhos, manadas e colméias, participava das folias das ninfas montanhesas e ajudava os caçadores a encontrar sua presa. Em geral, era tranqüilo e preguiçoso. Nada lhe apetecia mais do que uma sesta vespertina, e vingava-se daqueles que vinham perturbar o seu sono lançando-lhes, de dentro de uma cova ou caverna, um grito repentino, de arrepiar os cabelos. Apesar disso, os árcades tinham tão pouco respeito por ele que quando voltavam de mãos vazias depois de um longo dia de caça, ousavam ataca-lo com cebolas.

Pã seduziu diversas ninfas, entre elas Eco, que lhe deu Iinx e teve um fim desgraçado por amar Narciso; e Eufeme, a nutriz das musas, que lhe deu Croto, o Arqueiro do Zodíaco. Ele também se gabava de ter copulado com todas as mênades bêbedas de Dionísio.

Uma vez tentou violar a casta Pítis, que escapou dele facilmente, metamorfoseando-se num abeto, cujo ramo passou a ser usado desde então por Pã como grinalda. Em outra ocasião, perseguiu a casta Siringe do monte Liceu até o rio Ládon, onde ela se transformou em junco. Não conseguindo distingui-la do resto, ele cortou vários juncos ao acaso e os transformou numa flauta de Pã. Seu maior êxito amoroso foi Selene, a quem seduziu cobrindo seus pelos pretos de pele de cabra com tosões brancos bem lavados. Sem dar-se conta de quem era ele de fato, Selene aceitou montar no seu lombo, permitindo-lhe desfrutar dela como bem entendesse.

Os deuses olímpicos utilizavam para seu próprio proveito os poderes de Pã, apesar de desprezarem sua simplicidade e seu gosto por escândalos. Apolo obteve dele a arte da profecia, e Hermes copiou uma flauta que Pã deixara cair, dizendo-se seu inventor e vendendo-a a Apolo.

Pã é o único deus que morreu na nossa época. A notícia de sua morte chegou através de Tamo, marinheiro cujo barco ia rumo a Italia, fazendo escala na ilha de Paxi. Uma voz divina gritou do mar:

- Está aí, Tamo? Quando chegar a Palodes, trate de anunciar a morte do grande deus Pã! E assim fez Tamo. A notícia foi recebida desde a costa com gemidos e lamentos.

Pã, cujo nome deriva habitualmente depaein, “pastar”, representa o “demônio”, ou “homem de pé”, do culto árcade da fertilidade, que mantinha grande semelhança com o culto das bruxas do noroeste europeu. Esse homem, vestido com uma pele de cabra, era o amante eleito pelas menades bebedas durante suas orgias nas montanhas altas, privilégio que, mais cedo ou mais tarde, ele acabaria pagando com a própria morte.

Os relatos sobre o nascimento de Pã são muito variados. Levando-se em conta que Hermes era a força residente numa pedra fálica que constituía o centro dessas orgias, os pastores descreviam seu deus Pã como filho de Hermes com um pica-pau, cujas fortes batidas do bico supostamente pressagiavam a bem-vinda chuva estival. O mito de que ele tenha concebido Pã com Eneis é auto-explicativo, ainda que as mênades originais usassem outros estupefacientes além do vinho. O nome de sua famosa mãe Penélope (“a que tem uma rede sobre o rosto”) sugere que as mênades tinham! algum tipo de pintura de guerra para as orgias, recordando as listras da penelope, uma espécie de pato.

Plutarco diz (Sobre as demoras do castigo divino) que as mênades que mataram Orfeu tinham sido tatuadas por seus esposos como castigo.

A visita feita por Hermes a Penélope sob a forma de carneiro — demônio carneiro é tão comum quanto a cabra no culto das bruxas do noroeste - e o fato de ela engravidar com todos os pretendentes, além da jactância de Pã de ter copulado com todas as mênades, aludem ao caráter promíscuo das orgias em homenagem à deusa-abeto Pítis ou Élate. Os montanheses árcades eram os habitantes mais primitivos da Grécia, e seus vizinhos, mais civilizados, manifestavam desprezo por eles.

O filho de Pã, o torcicolo, ou biguatinga, era uma ave migrante de primavera, utilizada para encantamentos eróticos. As cebolas contêm uma substância tóxica irritante — muito efetiva contra camundongos e ritos - e eram usadas como purgante e diurético antes de se tomar parte num ato ritual, motivo pelo qual passaram a simbolizar a eliminação de más influências, e a imagem de Pã era açoitada com essas cebolas quando rareava a caça.

A sedução de Selene deve se referir a uma orgia do Dia de Maio sob a luz do luar, em que a jovem Rainha de Maio montava no lombo do seu homem de pé. antes de celebrar com ele um casamento silvestre. Nessa época, o culto do carneiro havia substituído o da cabra na Arcádia.

Ao que parece, o egípcio Tamo ouviu mal o lamento cerimonial Tbamus Pan-megas Tethnêce (“o todo-poderoso Tamus morreu!”) e entendeu: “Tamo, o grande Pã morreu!”. De qualquer modo, Plutarco, sacerdote de Delfos na segunda metade do século I a.e.c., assim acreditou e publicou, mas, quando Pausânias fez sua viagem pela Grécia, aproximadamente um século depois, encontrou santuários de Pã, altares, cavernas e montanhas sagradas dedicadas a ele, que ainda eram muito freqüentadas.

Mitologia - Mitologia Grega
2/21/2021 12:41:16 PM | Por Robert Graves
Mito de Criação Olímpico

No Início de todas as coisas, a Mãe Terra (Gaia) emergiu do Caos e pariu seu filho Urano (Céu) enquanto dormia. Fitando-a com carinho a partir das montanhas, ele fez cair uma chuva fértil sobre suas fendas secretas, e ela pariu grama, flores e árvores, com todos os animais e pássaros característicos. Essa mesma chuva fez os rios fluírem, preenchendo os lugares côncavos com água, formando, assim, os lagos e mares.

Seus filhos de forma semi-humana foram os hecatônquiros: Briareu, Giges e Coto. Em seguida surgiram os três violentos ciclopes, ferreiros construtores das muralhas gigantes, primeiro da Trácia, depois de Creta e da Lícia, cujos filhos foram encontrados por Odisseu (Ulisses, entre os romanos) na Sicília. Seus nomes eram Brontes, Estérope e Argés, e seus fantasmas passaram a morar nas cavernas do vulcão Etna desde que Apolo os matou, vingando-se da morte de Asclépio (Esculápio, entre os Romanos).

Os líbios, entretanto, alegam que Garamas nasceu antes dos hecatônquiros e que, ao subir a colina, concedeu á Mãe Terra uma oferenda de bolota doce.

Esse mito patriarcal de Urano obteve aceitação oficial durante o sistema religioso olímpico. Urano, cujo nome veio a significar "o céu", parece ter ganhado a posição de Primeiro Pai ao ser associado ao deus pastoral Varuna, um dos componentes da trindade ariana masculina, mas seu nome grego é uma forma masculina de Ur-ana ("rainha das montanhas", "ranha do verão", "rainha dos ventos" ou "rainha dos bois selvagens") - a deusa em seu aspecto orgíaco típico do solstício de verão. O casamento de Urano com a Mãe Terra registra uma antiga invasão helênica ao norte da Grécia, que permitiu ao povo de Varuna alegar que Urano havia gerado as tribos nativas lá encontradas, mesmo sendo reconhecidamente filho da Mãe Terra. Uma retificação do mito, registrada por Apolodoro, reza que a Terra e o Céu se separaram numa briga mortal e depois se reconciliaram, apaixonados: isso e mencionado por Euripides (Melanipa, a Sábia, fragmento 484, ed. Nauck) e por Apolonio de Rodes (Argonáutica 1. 494). A briga mortal deve se referir ao choque entre os princípios patriarcal e matriarcal que as invasões helênicas causaram. Giges ("nascido da terra') tem uma outra forma, gigas ("gigante"), e os gigantes estão associados miticamente às montanhas da Grécia setentrional. Briareu ("forte") também era chamado de Egeon (Iliada 1. 403), portanto seu povo talvez sejam os libio-tracios, cuja deusa-cabra Egis deu nome ao mar Egeu. Coto foi o ancestral eponimo (que da nome) dos cotianos, veneradores da orgástica Cotito que propagaram seu culto desde a Trácia ate o noroeste da Europa. Essas tribos são descritas como sendo "de cem mãos", talvez porque suas sacerdotisas fossem organizadas em grupos de cinquenta, como as danaides e as nereidas, ou porque os homens fossem organizados em bandos militares de cem, como os primeiros romanos.

Os ciclopes parecem ter sido uma corporação dos primeiros artífices helênicos que trabalhavam o bronze. Ciclope significa "com olho de anel", e eles eram provavelmente tatuados com anéis concêntricos na testa, em homenagem ao Sol, fonte de seu fogo de fornalha. Os trácios continuaram se tatuando ate a época clássica. Círculos concêntricos fazem parte do mistério do ofício de ferreiro: a fim de fabricar tigelas, elmos ou mascaras rituais, o ferreiro costumava guiar-se por esses círculos, marcados pelo compasso ao redor do centro do disco chato sobre o qual trabalhava. Os ciclopes tinham um só olho também no sentido de que os ferreiros geralmente cobrem um olho com uma venda para resguardá-lo das faíscas. Mais tarde, a identidade deles foi esquecida e a imaginação dos mitógrafos colocou seus fantasmas nas cavernas do Etna, a fim de explicar o fogo e a fumaça provenientes de sua cratera. Existiu uma conexão cultural estreita entre Trácia, Creta e Lícia; os ciclopes eram muito familiares em todos esses países. A cultura heládica primitiva propagou-se também pela Sicília, mar e bem possível (Samuel Butler foi o primeiro a sugerir) que a composição siciliana da Odisseia explique a presença dos ciclopes lá. Os nomes Brontes, Esterope e Arges ("trovão", "raio" e "relâmpago") são invenções tardias.

Garamas é o ancestral pepônio dos garamantes líbios, que ocuparam o Oasis de Djado, ao sul de Fezzan, tendo sido conquistador pelo general romano Balbo em 19 a.e.c. Diz-se que são de linhagem camito-berbere e que, no segundo século da era cristã, foram subjugados pelos berberes matrilineares lemta. Mais tarde, misturaram-se aos aborigines negros da margem meridional do Alto Niger, adotando sua Iinguagem. Sobrevivem ainda hoje em um único vilarejo chamado Koromantse. Garamante deriva das palavras gara, man e te, significando "povo do Estado de Gara. Gara parece ser a deusa Ker, Qre ou Car, que deu seu nome aos cariates, entre outros, e ficou associada a apicultura. Bolotas comestíveis, principal alimento do mundo antigo antes da introdução do trigo, cresciam na Líbia. O assentamento garamante de Ammon uniu-se ao assentamento grego setentrional de Dodona em uma liga religiosa que, de acordo com Sir Flinders Petrie, pode ter surgido já no terceiro milênio a.e.c. Ambos os lugares detinham um antigo oráculo de carvalho. Heródoto descreve os garamantes como um povo pacifico, mas muito poderoso, que se dedica ao cultivo de tamareira e trigo e ao pastoreio de gado.

 

Mitologia - Mitologia Grega
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Vivendo com Mindfulness

As reações ao estresse podem ter um efeito negativo sobre a saúde. Podem resultar em pressão sanguínea alta, um pulso rápido em descanso e... perturbações no ritmo cardíaco. As reações ao estresse podem enfraquecer o sistema imunológico, ou levar a uma série de doenças. É importante aprender como lidar com o estresse. Já se demonstrou que a meditação mindfulness pode ajudar uma pessoa a administrar situações de estresse ao aumentar a consciência e tornar a mente mais receptiva à situação presente da pessoa e a seus estados internos. É um método para assumir integralmente, com resistência mínima, a situação de vida e os estados internos que a pessoas têm no momento.

Pode-se gerar mais consciência em qualquer atividade. Apresentamos aqui alguns exemplos:

Estar atento (mindful) às emoções

Com a meditação mindfulness, a pessoa pode aprender a julgar menos. Julgar menos ajuda a gerar um estado mais relaxado. Pode-se aprender a olhar a raiva e outros estados emocionais com compaixão, o que possibilita abrir mão desses estados ou, ao menos, não intensificá-los.

Estar atento (mindful) à alimentação

Aumentar a própria consciência da alimentação pode beneficiar as pessoas que estejam tentando fazer mudanças em seus hábitos alimentares. Veja como aumentar sua consciên­cia da alimentação:

  • Observe a comida que vai comer. Concentre-se naquilo em que ela consiste. Pergun­te a si mesmo: “Ainda quero colocar essa comida dentro do meu corpo?”.
  • Preste muita atenção a cada mordida. A comida que se come atentamente (mindfully) será mais fácil de digerir, e você terá menos probabilidades de comer demais.
  • Imediatamente após comer, observe como aquilo que comeu afeta seu sistema di­gestivo. Ela está de acordo com você? Observe como se sente ao comer um prato com baixo teor de gordura em relação a um que tenha alto teor..., uma barra de chocolate em comparação a um lanche de legumes crus.

Exercícios atentos (mindful) de alongamento

Exercícios suaves de alongamento e fortalecimento, feitos muito lentamente, com cons­ciência de cada momento em termos da respiração e das sensações que surgem são yoga. A yoga busca unir corpo, mente e espírito, o que pode resultar em mais saúde e vitalidade.

Respirar e se sentar atentamente (mindfully) como forma de meditação

Respirar e se sentar de forma atenta (meditação) ajudam a relaxar e concentrar a men­te. Apenas 5 minutos por dia podem lhe fazer sentir mais renovado e energizado. Veja algumas orientações para respirar e se sentar atentamente:

  1. Reserve um tempo e um lugar especiais para o “não-fazer”.
  2. Adote uma postura corporal relaxada e alerta.
  3. Observe de forma desapaixonada as reações e os hábitos de sua mente.
  4. Preste atenção à sua respiração, contando, silenciosamente, “1” ao inspirar e “2” ao expirar, “3” ao inspirar, etc. Quando chegar ao 10, volte ao 1. (Se passar de 10, saiba que sua mente se perdeu.)
  5. Quando sua mente se perde, indique aquilo para onde ela foi e volte à respiração.
  6. Quando tiver praticado o ato de se concentrar em sua respiração, você poderá usar sensações, sons ou observar pensamentos como seu ponto de concentração.

Não se podem impedir as situações de estresse na vida, mas sim controlar as reações a elas. A prática do mindfulness pode ajudar.
 

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7/27/2020 8:09:30 PM | História Viva, n. 01
Napoleão, o senhor da guerra

Durante a revolução, Napoleão Bonaparte é um oficial como os outros. Ou quase. Por seu gênio militar, será reconhecido e condecorado no exterior, o grande triunfo para se impor perante os franceses.

História - França
7/20/2020 8:16:52 PM | Psicanálise, n. 25
Chantagem emocional

Você tem medo de ser reprovado ou tem medo do outro? Você sente que deve a alguém uma obrigação, mesmo quando se trata de algo que você não deseja fazer ou que é ruim para você? Você se sente culpado quando não cede às solicitações do outro? Situações deste tipo fazem você se sentir que não é uma pessoa boa? De acordo com a autora Susan Forward, se você respondeu sim a qualquer destas pergun­ tas, existe uma grande chance de que você possa “sucumbir” à chantagem emocional do outro.

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Dinossauro encontrado na Argentina pode ser o maior conhecido
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Pã e Panico

A palavra pan em grego significa «tudo», mas o deus Pã não se interessava pelo poder supremo. Não estava nada interessado em viver no Olimpo, preferindo uma vida mais simples na região campestre da Arcádia, onde ajudava os pastores e os caçadores assim como os apicultores. E, no entanto, Pã podia ser um deus aterrador. A palavra «pânico» deriva de pan e tem a ver com o terror repentino que ele provocava nos que se introduziam em locais solitários, quando o deus não queria ser incomodado (nomeadamente quando dormia a sua sesta).

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Mitos e lendas
3/6/2021 2:48:34 PM | Atena
Atena, Zeus e Métis

Alguns helenos dizem que Atena teve um pai chamado Palas, um gigante alado libidinoso que mais tarde tentou viola-la, cujo nome ela adicionou ao seu, depois de arrancar-lhe a pele (para fazer a égide) e as asas (para coloca-las em seus próprios ombros). Isso se a égide não foi feita da pele da górgona Medusa, que, depois de decapitada por Perseu, foi esfolada por Atena.

Há quem diga que seu pai foi Itono, rei de Iron, em Ftiótide, cuja filha Iodâmia ela matara acidentalmente, ao deixa-la ver a cabeça da gorgona, transformando-a, assim, em um bloco de pedra ao adentrar seu santuário inadvertidamente a noite.

Contam ainda que Posídon era seu pai, mas que ela o teria renegado, pedindo a Zeus que a adotasse, o que ele fez com prazer.

Mas os próprios sacerdotes de Atena contam a seguinte historia sobre o seu nascimento: Zeus desejava com ardor a titânida Metis, que, para escapar de seu. assedio, se transfigurou em variadas formas, até que, finalmente, ele a agarrou e a engravidou. Um oraculo da Mãe Terra declarou, então, que o nascituro seria uma menina e que, se Metis engravidasse mais uma vez, daria à luz um filho fadado a depor Zeus, assim como Zeus depusera Cronos e como este havia deposto Urano. Portanto, apos seduzir Metis, atraindo-a para o seu leito com palavras melífluas, Zeus, de repente, abriu a boca e a engoliu, e esse foi o fim de Metis, embora ele, depois, alegasse que ela lhe dava conselhos de dentro do seu ventre. No devido tempo, Zeus foi tomado por uma intensa dor de cabeça enquanto caminhava às margens do lago Tritão, tão intensa que seu crânio parecia prestes a explodir. Ele berrou furiosamente, até que seu grito ressoou por todo o firmamento. Logo veio Hermes, que adivinhou imediatamente a causa do desconforto de Zeus e persuadiu Hefesto - ou Prometeu, segundo outra versão - a trazer sua cunha e seu malho e fazer uma brecha no crânio de Zeus, através da qual saiu Atena, toda armada, com um ressonante grito de guerra.

---------------

 

J. E. Harrison descreveu corretamente a história do nascimento de Atena a partir da cabeça de Zeus como um desesperado expediente teológico para livrá-la de suas condições matriarcais. É também uma insistência dogmática sobre a sabedoria como uma prerrogativa masculina; até agora, só a deusa havia sido sábia. Hesíodo conseguiu, de fato, reconciliar três visões conflituosas em sua historia:

I. Atena, a deusa-cidade dos atenienses, era a filha partenogenica da imortal Metis, titânida do quarto dia e do planeta Mercúrio, que governava toda a sabedoria e todo o conhecimento;

II. Zeus engoliu Metis, mas sem perder com isso sua sabedoria (ou seja, os aqueus suprimiram o culto aos titãs e atribuíram toda a sabedoria a seu deus Zeus);

III. Atena era a filha de Zeus (ou seja, os aqueus insistiram para que os atenienses reconhecessem a supremacia patriarcal de Zeus).

Harrison tomou emprestado o mecanismo de seu mito de exemplos análogos: Zeus perseguindo Nemesis; Cronos engolindo seus filhos e filhos; o renascimento de Dionísio a partir da coxa de Zeus; e a abertura da cabeça da Mãe Terra feita por dois homens com machados, aparentemente para libertar Core - como a que está retratada, por exemplo, num jarro de azeite na Biblioteca Nacional de Paris. Depois, Atena torna-se a porta-voz obediente de Zeus, suprimindo deliberadamente seus próprios antecedentes. Ela emprega sacerdotes, e não sacerdotisas.

Palas, que significa "virgem", é um nome inadequado ao gigante alado, cujo atentado contra a castidade de Atena e provavelmente deduzido de uma imagem de uma cena de seu casamento ritual, em que ela aparece como Atena Láfria ao lado de um rei-bode, depois de um duelo armado com sua rival. Esse costume líbio do casamento com o bode alastrou-se pelo norte da Europa como parte das festividades do Dia de Maio. Os akans, um povo líbio, costumavam esfolar seus reis.

O repúdio à paternidade de Posídon por parte de Atena refere-se a uma mudança precoce na supremacia da cidade de Atenas.

O mito de Itono ("homem-salgueiro") representa a alegação, por parte dos itonianos, de que eles veneravam Atena antes mesmo dos atenienses. O nome de Itono demonstra que Atena teve um culto ao salgueiro em Friótide - assim como teve sua contraparte, a deusa Anata, em Jerusalém, até ser expulsa pelos sacerdotes de Jeová, a quem designaram o salgueiro fazedor de chuva como sua árvore, durante a Festa dos Tabernáculos.

Estaria condenado a morte o homem que removesse uma égide - a túnica de castidade feita de pele de cabra e usada pelas meninas líbias - sem o consentimento de sua proprietária: daí a existência da máscara gorgônea profilática colocada por cima dela, bem como da serpente escondida no saco, ou bolsa, de couro. Mas, tendo em vista que a égide de Atena é descrita como um escudo, sugiro em The White Goddess (p. 279) que ela seja um invólucro de saco para um disco sagrado, como aquele que continha o segredo alfabético de Palamedes, e do qual ele seria o inventor. Estatuetas cirenaicas segurando discos de tamanho proporcional ao do famoso disco de Festo, que tem marcada sobre ele, em forma de espiral, uma lenda sagrada, antecipam, segundo o professor Richter, Atena e sua égide. Os escudos heróicos, tão bem descritos por Homero e Hesíodo, parecem ter gerado pictogramas gravados numa faixa em espiral.

lodamia, que provavelmente significa "novilha de lo", teria sido uma antiga imagem de pedra da deusa-Lua, e a história de sua petrificação constitui uma advertência, a meninas curiosas, contra violar os Mistérios.

Seria um equívoco pensar que Atena fosse apenas ou predominantemente a deusa de Atenas. Numerosas acrópoles antigas lhe foram consagradas, inclusive Argos (Pausanias:11. 24. 3), Esparta (ibid.: 3. 17. 1), Tróia (Iliada vi. 88), Esmir (Estrabão: IV 1. 4), Epidauro (Pausanias: II. 32. S), Trezena (Pausanias: III. Z3. 10) e Feneus (Pausanias: X. 38. 5). Todos esses lugares são pré-helênicos.

Mitologia Grega
3/6/2021 2:41:17 PM | Urano
A Castração de Urano

Urano gerou os titãs com a Mãe Terra depois de haver atirado seus filhos rebeldes, os ciclopes, ao Tártaro, um lugar sombrio no mundo subterrâneo, que fica tão distante da Terra quanto a Terra do céu. Uma bigorna levaria nove dias caindo ate atingir o seu fundo. Por vingança, a Mãe Terra persuadiu os titãs a atacar o pai, e foi o que fizeram, liderados por Cronos (Saturno), o caçula dentre os sete, que ela armou com uma foice de pedra. Eles surpreenderam Urano durante o sono, e foi com a foice de pedra que o implacável Cronos o castrou, apanhando seus testículos com a mão esquerda (que tem sido desde então a mão de mau agouro) e os atirando depois, junto com a foice, ao mar, perto do cabo Drepano. Gotas de sangue, porém, escorreram do ferimento e caíram sobre a Mãe Terra, de maneira que ela deu à luz as três Erigias - Fúrias que punem crimes de parricídio e perjúrio - de nome Alecto, Tisifone e Megera. As ninfas dos freixos chamadas meliades também surgiram do sangue de Urano.

Os titãs, então, libertaram os ciclopes do Tártaro e outorgaram a soberania da Terra a Cronos.

Entretanto, pouco tempo depois de assumir o comando supremo, Cronos confinou de novo os ciclopes no Tártaro junto com os Hecatônquiros e, tomando sua irmã Réia (Cibele, entre os romanos) como esposa, governou a Elida.

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Hesíodo, que registra esse mito, era um cadmiano. Os cadmianos tinham vindo da Ásia Menor, provavelmente por ocasião do colapso do Império Hitita, trazendo consigo a historia da castração de Urano. É sabido, contudo, que o mito não é de composição hitita, visto que uma antiga versão hurrita (horita) foi descoberta. A versão de Hesíodo talvez reflita uma aliança entre os vários colonos pré-helênicos na Grécia meridional e central, cujas tribos dominantes favoreciam o culto titânico contra os primeiros invasores helênicos do norte. Tiveram sucesso na guerra, mas, em seguida, eles impuseram sua suserania aos nativos setentrionais que haviam libertado. A castração de Urano não é necessariamente metafórica, caso alguns dos guerreiros vitoriosos tenham tido sua origem na África oriental, onde, até hoje, guerreiros galas levam nas batalhas uma miniatura de foice para castrar seus inimigos. Há estreitas afinidades entre os ritos religiosos da África oriental e os da Grécia primitiva.

Os gregos tardios leem "Cronos" como Chronos, "Pai Tempo", com sua inexorável foice. Mas ele figura na companhia de um corvo, assim como Apolo, Asclépio (Esculápio), Saturno (seu correspondente romano) e Bran, um primitivo deus britânico. E Cronos provavelmente significa "corvo", como cornix em latim e corone em grego. O corvo era um pássaro oracular, que supostamente alojava-se na alma de um rei sagrado apos seu sacrifício.

Aqui, as três Erínias, ou Fúrias, que surgiram a partir das gotas do sangue de Urano, são a própria deusa tripla. Significa dizer que, durante o sacrifício do rei em prol da frutificação dos trigais e pomares, as sacerdotisas da deusa estariam usando ameaçadoras máscaras gorgoneas para afugentar os visitantes profanos. Os testículos dele parecem ter sido atirados ao mar a fim de estimular a reprodução dos peixes. As vingativas Erínias são vistas pelo mitógrafo como se advertissem Zeus (Júpiter, entre os romanos) no sentido de não emascular Cronos com a mesma foice. No entanto, sua função original era a de punir apenas as injustiças praticadas contra a mãe, não contra o pai, ou suplicar a proteção da deusa do lar.

As ninfas dos freixos são as três Fúrias numa disposição mais graciosa: o rei sagrado era dedicado ao freixo, originalmente utilizado nas cerimonias para fazer chover. Na Escandinávia, ele se tornou a árvore da magia universal. As três Nornas, ou Moiras (nome grego das Parcas romanas), distribuíam justiça debaixo de um freixo que Odin, ao reivindicar a paternidade da humanidade, transformara em seu cavalo mágico. As mulheres devem ter sido as primeiras fazedoras de chuva na Grécia e na Líbia.

As foices neolíticas de osso, denteadas com pederneira ou obsidiana, parecem ter continuado em uso ritual por muito tempo, após haverem sido suplantadas como instrumentos agrícolas por foices de bronze e de ferro.

Os hititas fazem Kumarbi (Cronos) arrancar com uma mordida os testículos do deus-céu Ann (Urano), engolir um pouco do sêmen e cuspir o resto sobre o monte Kansura, onde o sêmen se transforma numa deusa. O deus do amor, assim concebido por ele, é cortado de seu flanco por Ea, irmão de Anu. Esses dois nascimentos foram misturados pelos gregos, num conto sobre como Afrodite (Vênus, entre os romanos) surgiu de um mar impregnado pelos testículos cortados de Urano. Kumarbi, posteriormente, dá à luz uma outra criança retirada de sua coxa - assim como Dionísio (Baco, entre os romanos) renasce de Zeus -, que conduz uma charrete tempestuosa puxada por um touro e chega até Anu para pedir-lhe ajuda. A faca que separou a terra do céu aparece na mesma historia como a arma com a qual o filho de Kumarbi, o gigante nascido da terra Ullikummi, é destruído.

Mitologia Grega
11/22/2019 6:04:27 PM | Danna
A Chegada da Tribo de Danna

A tribo de Danna aportou na Irlanda e ninguém os viu chegar. Vieram encobertos por uma nuvem mágica densa. Nesse tempo os Firbolg habitavam a ilha e viviam oprimidos pelos Fomore, o povo das trevas, que, travadas diversas lutas, lhes exigiram por fim tributos extorsivos. Agora um espesso nevoeiro cobria toda a Irlanda em uma única camada de nuvem. Os Firbolg sentiram uma terrível ameaça. Era a terra que se dissolvia em abismo a seus pés, foi o que pensaram. Diante de tão incompreensível poder, buscaram refúgio e por três dias e três noites se recolheram oprimidos pela grande nuvem que se abateu sobre o país.

Seus magos por fim descobriram que o fenômeno era efeito de encantamento, e a custo fizeram uma contra-magia dissolver o nevoeiro. Saíram de seus abrigos e perceberam que um novo povo tinha aportado no país. Já tinham construído uma fortificação em Moyrein. Era a tribo de Danna que chegava trazendo poderosas forças e tesouros de magia desconhecidos. Tinha sido Morrígu, auxiliada por Badb e Macha, deuses guerreiros dessa tribo, que tinha evocado o nevoeiro usando formulas druídicas.

Os Firbolg enviaram um de seus guerreiros, Sreng, para saber quem eram os misteriosos invasores. O povo de Danna enviou, por seu turno, Brian para os representar. Os dois embaixadores examinaram as armas de cada um com grande interesse. As lanças dos Danna tinham pontas agudas e eram leves. As dos Firbolg eram pesadas e rombudas. Brian propôs que os dois povos dividissem a Irlanda pacificamente, juntos derrotassem os Fomore e defendessem o país de futuros invasores. Os Firbolg não se impressionaram com a superioridade dos Danna, eram para eles novos intrusos que chegavam para também os oprimir. A irmandade que ofereciam era dissimulação e astúcia para os dominar. Foi o que pensaram, e decidiram recusar a proposta: Se concedemos parte do país, logo exigirão o país todo, e nos exigirão tributos insuportáveis, disse Eochai, seu rei. A batalha foi travada no Campo de Moytura, no sul de Mayo, perto do lugar hoje chamado Cong. Liderava os Firbolg seu rei, Eochai Mac Erc; o rei Nuada comandava os Danna.

O povo de Danna ergueu-se no campo de batalha em fileiras flamejantes, levando escudos sólidos, brilhantes e de bordas vermelhas. Nas fileiras dos Firbolg faiscavam espadas, lanças e lançadores. A peleja começou. Vinte e sete Danna enfrentaram e derrotaram o mesmo número de Firbolg. Seguiu-se nova embaixada para deliberar sobre o modo de continuar a batalha. Nuada obteve de Eochai a garantia de que os dois exércitos lutariam com números iguais de combatentes. A luta recomeçou com uma série seguida de combates singulares. No fim do dia retomavam cada um para seu campo, ao descansavam e se curavam das feridas de guerra com banhos de ervas medicinais. A luta durou quatro dias, com terríveis baixas para ambos os lados.

Um herói dos Firbolgs, Sreng, partiu em dois o escudo de Nuada, o rei dos deuses, e com um terrível golpe decepou uma de suas mãos. Eochai, rei dos Firbolg, menos afortunado, perdeu a vida. Os Danna obtiveram vitória, protegidos por sua arte mágica de cura. Por fim, os Firbolg, derrotados e morto seu rei, ficaram reduzidos a apenas trezentos homens. Sabendo que para eles não havia salvação, pediram combate até a morte de todos os combatentes de um dos lados. Mas, em vez de consentir, os Danna ofereceram a eles a quinta parte da Irlanda: que tomassem para si uma província de sua escolha. Concordaram e escolheram Connacht, que se tomou seu território.

Como resultado da perda de uma de suas mãos, Nuada ganhou o codinome de Argetlam, o Mão-de-Prata. Diancecht, o medico da tribo Danna, fez para ele uma mão artificial de prata, tão habilmente que se ligou em todas as juntas, e tão forte quanto uma real. Contudo, por mais excelente que fosse o trabalho de Diancecht, era uma mão artificial, e, de acordo com os costumes celtas, nenhum homem mutilado podia ocupar o trono. Nuada foi deposto, e a tribo de Danna reuniu-se em assembléia para escolher um novo rei.

Escolheram Bress, filho de En e Elathan, para reinar em seu lugar. Esse Bress, agora rei, embora forte e belo, trazia a sua parcela de alma escura, herança de sua raça, os Fomore. Não apenas permitiu que os inimigos de Erin, os Fomore, oprimissem seu povo com tributos insuportáveis; ele próprio tratou de taxar extorsivamente seus súditos. Era tão mesquinho, que não dava hospitalidade nem a chefes nem a nobres nem a músicos nem a poetas, tampouco tinha a alma generosa. Reunia em si os piores vícios num príncipe, intoleráveis entre o povo da tribo Danna.

Não bastassem as taxas extorsivas, obteve com um estratagema hábil todo o leite produzido entre os Danna. Inicialmente, exigiu apenas a produção de vacas castanhas e sem pêlo, e o povo de Danna consentiu de boa—vontade. Mas Bress passou todo o gado de Erin entre duas piras de fogo, de maneira que perderam o pêlo e ficaram queimadas. Foi desse modo fraudulento que obteve todo o leite produzido e ficou com o monopólio de toda a fonte de alimento da Irlanda. Para obter sobrevivência, todos os deuses, mesmo os maiores, foram forçados a trabalhar para ele. Ogma, o seu herói, tornou-se coletor de lenha para o fogo. Dagda, o construtor de fortalezas e castelos.

Bress provocou a ira dos deuses. Era inadmissível um rei que não fosse liberal com seus súditos. Na corte de Bress ninguém jamais teve entre as mãos uma faca untada de gordura, ou sentiu o aroma da cerveja. Os poetas, músicos e ilusionistas já não davam divertimento ao povo, pois Bress não compensava sua arte. Por último ele cortou toda a subsistência dos deuses. Tão escassa era a comida, que começaram a ficar fracos de fome. Ogma só tinha forças para apanhar um terço da lenha necessária ao fogo, e passaram todos a sofrer tanto com o frio quanto com a fome.

A crise se agravava. Foi então que dois médicos, Miach e Airmid, filho e filha de Diancecht, o deus da medicina, vieram ao castelo onde Nuada, o antigo rei, vivia. Examinaram seu pulso e viram que a juntura da mão de prata tinha causado uma grave infecção. Miach quis saber onde estava a mão mutilada. Tinha sido enterrada. Ele exumou a mão e a colocou no coto, pronunciou fórmulas mágicas: tendão com tendão, nervo com nervo se juntem! Em três dias a mão tinha se recomposto e se fixado no braço, e desse modo Nuada estava novamente perfeito.

Diancecht, pai de Miach, ficou furioso quando soube do feito do filho: Então, será possível que ele exceda a mim em talentos medicinais? Não, e preciso extirpar isso. Ninguém além de mim tem maior ciência em medicina e arte mágica de curar. Foi ao encalço do filho e abriu-lhe a cabeça com a espada. Miach facilmente se curou. Diancecht o feriu novamente. Novamente Miach se curou. Pela terceira vez Diancecht o feriu. Dessa vez o golpe tinha rompido a membrana que envolve o cérebro. Novamente Miach foi capaz de curar-se. E pela quarta vez, Diancecht veio ate ele e, cego de ciúmes e despeito, cortou-lhe a cabeça, partindo seu cérebro em dois. Miach não pôde fazer nada, era impossível a cura. Satisfeito, Diancecht tratou de sepultá—lo. Sobre seu túmulo nasceram 365 ervas, cada uma com propriedades curativas para as doenças de cada um dos 365 nervos que formam o corpo. Airmid, a irmã de Miach, colheu todas cuidadosamente e as ordenou segundo a propriedade de cada uma. Mas o ciúme e o despeito do pai novamente impediram que esse bem prosperasse. Embaralhou e confundiu todas entre si. A jovem irmã não pôde mais separá-las. Não fosse esse ato promovido por um instinto sombrio, dizem os poetas da Irlanda, os homens teriam o remédio para todas as doenças e seriam imortais. Diancecht é o pai da discórdia e o destruidor das esperanças do homem. Nunca mais houve outra oportunidade como essa. Miach foi o único ser dotado de tão excelente conhecimento e magia. Ninguém mais houve que excedesse seus divinos dons.

Lamentável o fim a que seu dom o levou. Embora morto, os efeitos benéficos de sua arte continuaram a exercer domínio entre os deuses. Os poetas da Irlanda — e ouçamos os poetas, entes que sensivelmente captam os mistérios do mundo — disseram a respeito da morte de Miach: Esse deus luminoso que morre, ainda que a sorte o tenha apartado dos seus, permanece atuando entre aqueles a quem amou. Assim acontece aos luminosos: parecem destinados a trazer toda ventura a seus pares e nenhuma para si mesmo.

Tem razão os poetas. O luminoso Miach tinha curado a mutilação de Nuada, e o fizera novamente homem sem defeito. Esse acontecimento oportuno foi uma bênção para os deuses, filhos de Danna, que nessa ocasião deliberavam sobre a necessidade imediata de depor Bress e acabar com sua tirania. Um evento recente tinha aviltado a todos. A tribo de Danna amava seus poetas e lhes dedicava grande honra. Toda consideração lhes era concedida e eles partilhavam da mesa dos reis. Aconteceu que o injusto e indelicado Bress tinha feito um agravo ao poeta Cairpré, filho de Ogma, deus da literatura, que insuflou na mente do filho o divino dom da poesia.

O sagrado poeta tinha ido visitar Bress. Em vez de ser tratado com as honras que lhe cabiam, o indelicado rei o instalou em um aposento escuro e pequeno, um cubículo, desprovido de toda benevolência e amizade. Fogo não havia, cama não havia, mobiliário não havia. Um cubículo nu, desconfortável, com uma miserável mesa sobre a qual havia pedaços de bolo velho, pão seco, nenhuma água. Cairpré passou frio, fome e sede a noite toda. Na manha seguinte levantou cedo e, sem dizer uma palavra ao rei, deixou em silêncio o palácio. Era costume entre os poetas criar um panegírico em honra do rei por sua hospitalidade. Cairpré, porém compôs uns versos satíricos mágicos. A primeira sátira composta na Irlanda, que dizia:

Nenhuma carne nos pratos, nenhum leite nas taças;

nenhum abraço aos visitantes;

nenhum prêmio aos menestréis:

Eis o louvor que Bress oferece!

E foi esse poeta mágico que completou a tarefa de Miach. A sátira de Cairpré foi tão virulenta, que o rosto de Bress arrebentou todo em pústulas vermelhas. Era isso também uma mutilação que impedia um rei de continuar reinando. Os Danna exigiram que ele renunciasse, e Nuada, novamente perfeito pelas mãos de Miach, reassumiu o reino.

Obrigado a deixar o trono, Bress procurou sua mãe Eri e lhe pediu que lhe declarasse quem era seu pai: Seu pai, ela disse, é Elathan, que me seqüestrou secretamente em uma noite e, depois de me copular, deixou comigo esse anel para dar àquele em cujo dedo ele se ajustasse e, dizendo isso, colocou o anel no dedo de Bress. De posse do anel e do segredo de seu nascimento, ele retornou ao país dos Fomore, sob o mar. Queixou-se ao seu pai, Elathan, pedindo a ele que reunisse um exército para reconquistar o trono. Reuniram-se os maiorais em conselho: Elathan, Tethra, Balor-do-Olho-Maligno, Indech, todos os guerreiros e chefes. Decidiram organizar uma grande hoste, e levar a Irlanda para o fim do mar onde o povo de Danna nunca mais a encontrasse.

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